Uma reflexão sobre a tecnologia

Gadget, você não é um aplicativo!

Jaron Lanier

 

Estamos tão acostumados com a cultura tecnológica que poucas vezes paramos para refletir sobre a influência que ela tem sobre nossas vidas. A internet, mp3, facebook, compartilhamento de arquivos, tudo isso é tão presente que não paramos para pensar de onde vieram estes padrões, estas formas de interagir com a tecnologia.

Jaron Lainer é um dos personagens do Vale do Silício, ou seja, é um insider. Foi um dos visionários que na década de 80 ajudaram a criar várias plataformas e paradigmas que usamos até hoje. Agora ele se questiona e coloca para nós a pertinência ou não de uma série de decisões que foram tomadas, boa parte sem o mínimo de reflexão, e que hoje nos limitam ou nos causam uma série de danos. 

Temos a falsa idéia de que se algo na tecnologia não está bom, então um conjunto de gênios mudaria para fazê-lo melhor, ou seja, que o que temos é o melhor possível. Não é bem assim, como Lanier explica, o custo para mudar uma plataforma ou uma solução pode ser impeditivo, ou trabalhoso o suficiente, para alterá-la. Melhor deixar como está.

Como o compartilhamento de arquivos está afetando a classe média artística? O que gerou efetivamente a cultura digital? O que a decisão, baseado nas paranóias da guerra fria, pelo anonimato na rede gera de problemas? O que um novo tipo de conhecimento, baseado na multidão, provoca em nossa cultura? Como a facilidade de cálculo e rapidez nos processos afeta o mercado financeiro?

Lanier é bastante crítico sobre estas questões, aponta algumas soluções e uma série de dúvidas. Tenho me interessado pelo assunto ultimamente e este livro é uma boa fonte de informações e colocação de perguntas para investigação. Realmente, estamos tão imersos na tecnologia e suas possibilidades que não pensamos nem nas suas limitações, nos seus efeitos indesejados, e muito menos na sua influência cultural.

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O sacrifício pode ser fácil, principalmente dos outros.

Quantas vezes é necessário um sacrifício para se livrar de um problema? Mas quem estará disposto a realizar este sacrifício, principalmente quando é em favor de outra pessoa? Ou, colocando em outras palavras, até que ponto é justo exigir um sacrifício de outra pessoa para nos salvarmos de um determinado destino? Este é o tema principal da peça Alceste, de Eurípedes.

Juntamente com Sófocles e Ésquilo, Eurípedes forma o triunvirato dos grandes trágicos de Atenas. Contemporâneo de Sócrates, o questionamento moral e político do filósofo aparece em suas peças, que tiveram profunda influência sobre a dramaturgia moderna, especialmente em Shakespeare. Alceste é sua peça mais antiga sobrevivente, quarta de uma tetralogia perdida, encenada pela primeira vez em 438 A. C.

Conta a história de Admeto, rei de Féres, que deveria estar morto mas foi salvo por um acordo de Apolo com as Parcas. Sua vida seria poupada, desde que alguém fosse voluntário para morrer em seu lugar. Nem seus pais idosos, nem seus amigos mais fiéis, aceitaram o sacrifício; coube à sua esposa, Alceste, se apresentar. Apolo ainda tenta intervir mais uma vez com Tânatos, enviado de Hades, que vem buscar sua vítima, mas em vão; Alceste deve partir. Ela morre e ao mesmo tempo chega ao castelo Hércules, que encontrava-se cumprindo seus 12 trabalhos em busca de hospedagem. Admeto o engana dizendo que uma pessoa distante acabara de morrer para que o heróis não recusasse a hospedagem. Ao saber da verdade, Hércules resolve tentar trazê-la de volta.

Inicialmente a peça se apresenta como uma reflexão sobre a morte e a constatação que existe uma ordem natural para que ocorra; os pais devem partir antes do filho. O próprio Apolo cobra de Tânatos que este deveria “preferir aqueles que tanto tardem em morrer”. Este responde: “quando morre quem está na flor da idade, bem maior é minha glória!”, mostrando que a morte dos mais novos é sempre um acontecimento de maior dramaticidade e de aparente injustiça.

A questão principal, entretanto, é a do sacrifício. A revolta maior de Admeto é com os próprios pais, que já idosos recusaram-se ao sacrifício. 

Tu devias chorar, quando eu estava prestes a morrer; mas ficaste de longe, deixando que se sacrificasse outra mais jovem, velho como és!

O pai, Féres, responde com a verdade avassaladora:

Se te apraz contemplar a luz, pensas que que o mesmo não se dê comigo? Bem sei que longo tempo, muito longo tempo mesmo, eu permanecerei sob a terra; o que me resta da vida terrena é pouco, mas é doce! Tu, que te debateste vergonhosamente contra a morte, tu vives, sim; transpuseste o passo fatal, mas à custa de tua esposa! E agora censuras a minha covardia, tu, infame, suplantado em coragem por uma mulher, que se deixou morrer por ti, belo rapaz!

Essa é a questão essencial da peça. Por que haveria de alguém realizar um sacrifício que o próprio Admeto poderia realizar? Como pode ele aceitar que sua esposa, amada e fiel, pudesse ir em seu lugar? Que direito tinha de exigir de alguém que fizesse o que ele próprio não tinha coragem? Apegou-se no racionalismo que seus pais teriam o dever de dar a vida para salvá-lo, mas nestas circunstâncias?

Trazendo para nossa realidade diária, não vemos isso o tempo todo? Troquem a morte por outro sacrifício qualquer, como o político que entrega a cabeça de um assessor para salvar a própria, ou o presidente que entrega a de um de seus ministros, o chefe que deixa um subordinado ficar com uma culpa, o marido que espera que a esposa ligue para o 0800 da net porque ele acha aquilo uma chatice. Tem exemplos para todos os outros, mas sempre o mesmo princípio, o outro tem menos a perder que ele. Do mesmo jeito que os pais de Admeto eram idosos e teoricamente não perderiam muito com a troca, o político pensa de seu assessor, o chefe do subordinado, o marido da esposa ou a esposa do marido. O pai que deixa o filho assumir uma culpa pois ficaria bem mais grave se soubessem que foi ele o autor de determinada ação. No fundo, a fuga da responsabilidade pelos próprios atos.

A peça termina com uma mudança em um destino que parecia definido, mostrando que nem tudo é irreversível. A melhor conclusão fica para as palavras do próprio coro, a consciência moral das peças gregas, que omito a última frase para não contar o final:

Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestaram-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses.

 

PS: Para ficar com um exemplo concreto, o mensaleiro João Paulo Cunha, do PT,  mandava a própria esposa recolher sua parte do butim de Marcos Valério no Banco Rural para que se fosse necessário ela assumisse a presença no banco em seu lugar. Em um primeiro momento, quando apareceu apenas a lista de entrada no banco, ele não teve dúvidas em dizer que ela foi apenas pagar uma conta da tv a cabo. Quando surgiu as assinaturas e a lista de quem sacou dinheiro no banco nas contas de Valério, a estória caiu por terra. Hoje o prezado deputado, mesmo condenado pelo STF e aguardando sua cela, é membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, mostrando o atual estágio de degeneração da democracia brasileira. 

Demian – Herman Hesse

Sinclair é um jovem que luta contra uma visão maniqueísta da vida. A dualidade entre o bem e o mal se coloca para ele desde as primeiras páginas, quando coloca a oposição entre uma vida luminosa, da virtude, representada por suas irmãs, e um outro mundo, escuro, dos pecados, que o tenta a todo instante.

Sua primeira queda se dá com o encontro com um valentão de sua aldeia. O que começa por uma simples mentira (uma mordida de maçã?), termina como um mergulho em uma série cada vez maior de delitos. O caminho que o levaria à perdição completa é interrompido pela a chegada de um novo habitante, o Demian do título.

Depois de afugentar o valentão, Demian passa a ser uma espécie de guia para Sinclair, introduzindo-o em questionamentos existenciais e religiosos. A simbologia da Bíblia é colocada em questão, assim como sua relação com a vida.

Afastado de Demian, em um colégio interno, Sinclair se entrega a uma vida sem limites, entregando-se ao vício do jogo e da bebida. Curiosamente mantém-se afastado das mulheres, colocando-se distante da tentação erótica. Até que conhece um novo guia e posteriomente volta a se relacionar com Demian.

A jornada de Sinclair é uma alegoria da própria narração bíblica. A curiosidade que leva à perdição e depois à redenção. Há elementos de mistério na narrativa, especialmente quando se refere a Demian (nome sugerstivo?) e sua mãe.

O tema do livro é principalmente a existência do homem e sua transcendência. Qual o papel do indivíduo no concerto do mundo? Sua insignificância fica ainda mais evidente com a chegada da I Guerra Mundial, assim como o pessimismo que carregou consigo, acabando com a era de ouro da juventude européia.

Sinclair é um jovem perdido, assim como tantos que se relacionam com ele. Em algum momento uma existência movida por ideais se perde entre uma geração e outra; e o que resta é uma face escura da humanidade, onde o vício leva o novo homem para a solidão, abandono e falta de sentido para a própria existência.

A mão de Deus se faz mostrar no livro, através da providência divina, que mostra para Sinclair que é apenas através de si mesmo que encontrará o caminho para a verdade, tal como ensinou Cristo. Não é à toa que no momento de maior desespero, a simples imagem de uma moça, o fará retornar ao eixo de sua vida mostrando o verdadeiro sentido de milagre.

E Demian? Que papel desempenha no livro para ter o papel principal? Por que o livro não se chamou Sinclair? Esta é uma pergunta difícil de responder, que apenas posso especular. E possivelmente errar em cheio.

Demian, como o próprio nome diz, pode se referir ao tentador. Ao livrá-lo do valentão, institui uma dívida espiritual e moral de Sinclair para ele. Com sua voz mansa e cheia de sentidos, leva Sinclair a questionar tudo que julgava de mais sólido em sua vida, especialmente sua fé. Não é esse o papel do demônio? Não é através de uma imagem feia que ele surge para nos tentar, mas justamente com a imagem que estamos precisando. Com palavras suaves, com a manipulacão da razão.

Demian me parece a alegoria bíblica da tentação no deserto e Sinclair, o homem falho, sucumbe, sem perceber o alcance de sua queda. Apenas a conversão no sentido clássico, o voltar-se para si mesmo em busca da verdade, seria capaz de salvá-lo. E a nós. Mas teremos a coragem necessária para enfrentar a verdade? É a pergunta que ficou para mim ao terminar este breve, mas instigante romance, de Herman Hesse.

Complexo, não?

Cat on a Hot Tin Roof

Cat on a hot tin roof

Sabem aqueles filmes construídos em cima de diálogos brilhantes e performances inspiradas? Cat on a Hot Tin Roof é certamente um deles. Um clássico que mostra Elizabeth Taylor e Paul Newman com uma extraordinária química.

O texto é do Tennessee Williams e se passa em um único dia em que Big Daddy, um milionário que sofre de câncer terminal, e as duas famílias que vivem à sua sombra. Gooper e Mae, impagáveis com seus inúmeros filhos; e o casal sem filhos formados pelo ex-jogador de futebol e alcoólatra Brick (Newman) e Maggie (Taylor).

Brick é frio com a esposa e evita qualquer contato amoroso com ela enquanto Mae é uma espécie de Macbeth caipira, levando Gooper a lutar pela herança do pai. 

Ao longo de uma intensa noite, os segredos da família serão colocados a limpo e os confrontos serão estabelecidos, para o bem e para o mal. Aos poucos os diversos personagens vão se livrando de suas máscaras e demonstrando o que realmente sentem. Afinal, como diz um dos personagens, são nas crises que o melhor e pior de cada um aparece. 

Um clássico do cinema que viverá eternamente pois trata da natureza humana e uma ampliação dos conflitos que temos em nossas próprias famílias. Que ainda continuarão presentes na humanidade por muito tempo ainda.

 

Quotes

Brick Pollitt: What is the victory of a cat on a hot tin roof? 
Margaret “Maggie” Pollitt: Just staying on it I guess, long as she can. 


Margaret “Maggie” Pollitt: You’ve got to. 
Brick Pollitt: I don’t have to do anything I don’t want to! Now, you keep forgetting the conditions on which I agreed to stay on living with you. 
Margaret “Maggie” Pollitt: I’m not living with you! We occupy the same cage, that’s all. 

Dr. Baugh: Sometimes I wish I had a pill to make people disappear. 

Ida ‘Big Momma’ Pollitt: We never were a very happy family. There just wasn’t much joy in this house. It wasn’t Big Daddy’s fault. It was just… you know how some families are happy. 

Margaret “Maggie” Pollitt: Thank you for keeping still, for backing me up in my lie. 
Brick Pollitt: Maggie, we’re through with lies and liars in this house. Lock the door. 


Comunidade e Estado

Saneamento Básico, o Filme

20121227-002745.jpgUm projeto pode ser algo incrivelmente agregador, mas é preciso que as pessoas se comprometam com ele, que se dediquem a vê-lo concluído. Quando uma liderança consegue este compromisso, reunindo as mais diversas individualidades para um bem comum, o resultado pode ser espantoso. É o que nos mostra o excelente Saneamento Básico, o Filme.

Marina tenta reunir apoio da comunidade para conseguir junto à prefeitura os recursos necessários para uma obra de saneamento que beneficiaria toda sua comunidade. Não por acaso, o filme inicia com uma reunião em frente a igreja, onde tenta em vão comprometer as pessoas em seu projeto. A cena mostra um pouco da origem de nossas mazelas, pois o desinteresse é patente; seu próprio pai, um tocante Paulo José, é o principal descrente da empreitada. No fim, apenas com o apoio do seu marido, o simplório Joaquim _ excelente interpretação de Wagner Moura _ vai apresentar seu pleito à burocracia estatal.

É o retrato do Brasil, onde mesmo as pessoas bem intencionadas como Marina, só conseguem enxergar no estado a solução para seus problemas. O problema é que toda nossa burocracia não é montada para administrar e sim para evitar o roubo, o que muitas vezes faz que importantes recursos sejam literalmente jogados no lixo. Como está prestes a acontecer pois a prefeitura não tem dinheiro na rúbrica de saneamento básico, mas possui 10 mil reais para produzir um filme. Se não for gasto com esta finalidade, deve ser restituído à Brasília.

Nesse ponto Marina foge do conformismo da maioria dos empreendedores brasileiros. Resolve usar os recusos para fazer um filme sobre saneamento básico, com o mínimo de custos, para empregar os recusos na obra, que será parte deste filme.

Munida de uma idéia e força de vontade para realizá-la, vai aos poucos reunindo as pessoas em torno do projeto, gerando o compromisso tão necessário para o sucesso de qualquer empreendimento. Aparece como importante a noção de comunidade, de reunião de pessoas dispostas a usar seu tempo e seus recursos, que no fundo são a mesma coisa, para realizar algo de importante para todos. O estado pode no máximo participar com uma parte do investimento, mas o motor da realiação tem que ser a comunidade.

Não vejo solução para o Brasil enquanto revalescer a crença que o estado deve resolver os nossos problemas. Enquanto não surgir uma verdadeira idéia de comunidade, de realização coletiva, pouco conseguiremos avançar. O que necessitamos é de uma mudança de pensamento, que necessariamente passará pela mudança cultural, para que tenhamos a compreensão que cabe à própria comunidade solucionar os seus problemas. Para isso precisamos também de um novo modelo de estado, um que seja menos provedor e que torne mais fácil estas associações espontâneas. Ou que pelo menos coloque menos obstáculos.

Saneamento Básico é um filme divertido, ancorado em excelentes atores e um bom roteiro, que mostra um dos nossos problemas básicos, a crença quase messiânica no estado, e que aponta a direção da solução, a comunidade. Pode ser a família, a vizinhança, a rua, talvez o bairro, mas uma reunião de pessoas com suas capacidades, e criatividades, empenhadas em fazer algo para um bem comum. Se cada um ajudar no que pode, o peso a carregar é ínfimo quando comparado ao resultado. Pode ser quase uma utopia falar nisso agora, mas não vejo outra saída. Temos que nos comprometer com soluções locais, desenvolvidas em comunidade, sem depender do estado. Só assim conseguiremos um verdadeiro progresso social.

Tremendas Trivialidades – G. K. Chesterton

Gilbert Keith Chesterton escreveu bastante. Talvez poucos pensadores tenham deixado uma obra tão completa, e tão coerente, quanto ele. Tem de tudo. Romances, peças de teatro, poesia, ensaios, livros de exposição, crônicas. Tremendas Trivialidades está neste último grupo, embora de maneira um tanto quanto imprópria. Explico.

Ainda peguei uma época em que haviam crônicas nos jornais. Hoje temos aqueles textículos, em todos os sentidos, do Veríssimo. Não há espaço na modernidade para textos longos nos jornais. Aliás, os manuais de estilo para internet também aconselha que não se escreva textos longos em blogs porque ninguém vai ler _ parece que Reinaldo Azevedo, para desesepero de seus detratores, é uma saudável exceção. Pois bem, retomando, como dizia, ainda peguei a época de crônicas em jornais. Hoje não há nenhum lugar para elas; de certa forma tornou-se inadequada para nossa modernidade líquida. No máximo estudada nas escolas por professores de português preguiçosos e passada para alunos mais preguiçosos ainda. Boa parte dos nossos professores partem do pressuposto que o aluno não vai ler um livro e por isso preferem uma crônica do Drummond ou de outro de nossas referências, até porque muitos deles também não gostam de leituras profundas. Talvez por isso nossos vestibulares estejam repletos de tirinhas de jornais.

O que tento dizer, depois dessa volta, é que tenho uma boa idéia do que seja uma crônica. E se considerar todas que li até hoje, então o que Chesterton escrevia no Daily News é algo diferente, e raro. Quase que um estilo próprio. Algo parecido só fui encontrar nas crônicas, na falta de outro termo, de Gustavo Corção, um admirador confesso do inglês. Etienne Gilson, famoso medievalista, deu uma das chaves para entender Chesterton: ele disfarçava um pensamento profundo com a espiritualidade jovial de seus textos.

É esta experiência que o leitor encontrarar nos 39 textos de Tremendas Trivialidades, todos pinçados pelo próprio autor, do Daily News, e publicado no início do século passado. Um pensamento profundo desvendado a partir de observação de acontecimentos triviais do dia a dia que revelam a atenção que ele tinha com a realidade, com a vida que nos circunda. E muitas vezes com as coisas mortas.

Duas crônicas mostram bem o que estou tentando dizer.

A primeira delas, O Vento e as Árvores, mostra uma criança que tenta brincar mas é constantemente atrapalhada pelo vento. Observando o movimento dos galhos de uma árvore, ela pede ao pai que faça a árvore parar de balançar os braços para que o vento também pare. Trata-se obviamente de um erro bastante lógico para uma criança, confundir a causa com o efeito e acreditar que são as árvores que causam o vento.

Pois Chesterton acrescenta:

Nada, penso eu, poderia ser mais humano e desculpável do que a crença que são as árvores que causam o vento. Com efeito, é tão humana e desculpável que é, na prática, a crença de que aproximadamente noventa e nove de cada 100 filósofos, reformadores, sociólogos e políticos da grande época em que vivemos. Meu pequeno amigo era, de fato, muito semelhante aos principais pensadores modernos; só que muito mais simpático.

Para Chesterton o vento é a filosofia, religião, revolução, ou seja, tudo que não conseguimos ver, o espírito que sopra onde quer. As árvores são as cidades e civilizações, as coisas materiais do mundo que são sopradas para onde o espírito quer. Só sabemos que está ventando quando as árvores enlouquecem; só sabemos que há uma revolução quando os topos de chaminé enloquecem. Ninguém jamais viu uma revolução, mas os resultados da revolução. A tomada da Bastilha, por exemplo, foi a conclusão de um processo que ocorreu a partir do pensamento pois todas as revoluções começam sendo abstratas.

O grande dogma humano é, assim, que o vento move as árvores. A grande heresia humana é que as árvores movem o vento. Quando as pessoas começam a dizer que as circunstâncias materiais criaram para si sós as circunstâncias morais previnem qualquer possibilidade de mudança séria. Pois se minhas circunstâncias me fizeram completamente estúpido, como posso estar certo sequer que tenho do direito de alterá-las?

Esta última frase prativamente destrói todo falso pensador que afirma que o homem é o produto do meio e ao mesmo tempo acha que está acima deste meio. Como ele poderia saber?

Outra crônica maravilhosa, e um tanto soturna, é O Diabolista. Nele Chesterton narra uma conversa que teve uma vez com um colega da escola das artes. Este colega fazia parte de um trio de libertinos, de amorais. Sua primeira observação é que quando se encontra, como é frequente, um trio de devasos e idiotas saindo juntos, um deles não é nem devasso e nem idiota. E foi com um destes homens que teve a conversa, a que discutiram sobre coisas reais pela primeira e a última vez.

O assunto era a moral. Ao invés de atacá-la, como provavelmente os outros dois fariam, o colega simplesmente perguntou: por que se importa com a moral? Esta pergunta fez Chesterton ter a impressão inexplicável de estar sendo tentado no deserto, uma referência óbvia às tentações de Cristo pelo diabo. Prosseguindo a estranha conversa, termina com uma frase deste estranho colega, tão moderna e tão cheia de consequências: o que você chama de mal eu chamo de bem.

Mas não termina aí, o colega desce as escadas e encontra com seus dois companheiros. De longe, Chesterton narra:

E então ouvi aquelas duas ou três palavras que recordo sílaba por sílaba e não consigo esquecer. Ouvi o diabolista dizer, ” estou lhe dizendo que já fiz tudo o mais. Se fizer isso já não saberei a diferença entre o certo e o errado”. Corri para fora sem atrever-me a parar, e ao passar pela fogueira não sabia se era o inferno ou o furioso amor de Deus. (…) Desde então, ouvi dizer que ele morreu: pode-se dizer, imagino, que cometeu suicídio; embora o tenha feito com ferramentas de prazer e não de dor. Deus o ajude, conheço o caminho que trilhou; mas nunca soubre, ou mesmo ousei pensar, qual foi o ponto em que ele parou e hesitou.

Já definiram a essência de Chesterton como um tomista, não no sentido de produzir filosofia, mas de utilizar os valores expressos por São Tomás de Aquino no século XIII, mas valores imemoriais e eternos, para analisar os valores que ameaçavam se tornar hegemônicos em sua época. Tudo que escreveu, por incrível que pareça, é mais apropriado para o nosso tempo do que o seu, pois seus medos se concretizaram e hoje vivemos imersos nos perigos que via surgir. Ler Chesterton é colocar o mundo de volta ao lugar e entender porque temos tanto a aprender com os medievais e que existe uma moral eterna e imutável, no fundo de todas as civilizações.

E que vivemos em um mundo doente.