Modernidade: os sofistas contra-atacam

E, portanto, um anunciado será igualmente considerado falso se afirmar que coisas que são não são, ou que coisas que não são são.

Quem se aventurar a ler o diálogo Sofista de Platão vai entender muito do que acontece hoje na discussão de idéias. Nada mais do que o triunfo do sofista sobre o filósofo, ou da imitação sobre a realidade. Este fenômeno se dá em todos os campos, na política, economia, cultura, nas ciências. A revolta de Sócrates contra este quadro  deu origem à verdadeira filosofia, estabelecendo as bases para o uso da razão em busca da verdade sobre as coisas para o milênios que se seguiram.

E o que era o sofista? Basicamente pode-se dizer que era um falso sábio, alguém que fingia saber o que não sabia ou fingia não saber o que efetivamente sabia, em outras palavras, a esmagadora maioria dos intelectuais da modernidade. Homens que ganham a vida para ensinar os mais jovens a impor suas opiniões, a vencer debates, a esconder sobre as mais variadas camadas de falsidade um objeto com a finalidade de convencer o público. É o reino da opinião como substituto da verdade, ou seja, o reino da mentira.

No diálogo, um homem é apresentado a Sócrates como um estrangeiro de Eléia, um verdadeiro filósofo, o que desperta em Sócrates o questionamento sobre a diferença entre o político, o filósofo e o sofista. Como sempre, Platão parte sua especulação sobre um problema real que o filósofo se deparava, justamente a busca do conhecimento verdadeiro. Para Sócrates e Platão um problema só merecia ser investigado quando se colocava para a pessoa como um problema efetivo de sua vida e não simplesmente como conceito abstrato.

O livro é uma verdadeira discussão sobre uma metodologia de busca da verdade, que parte da idéia que o primeiro passo é justamente definir corretamente o objeto a ser discutido pois é necessário que em um diálogo as partes estejam se referindo a mesma coisa e não a coisas diferentes representadas por um mesmo nome. Busca-se a essência, a substância do objeto de investigação. O objeto da filosofia é a realidade e não as suas abstrações como costuma-se ensinar.

Para se buscar a essência, deve-se retirar tudo que não é do ser. Significa enquadrar um objeto em um conjunto e depois excluir do conjunto o que o objeto não é. Acontece então um processo de purificação que é justamente a retirada das camadas de falsidades que se colocam sobre a verdadeira natureza de um ser. O que se pratica hoje é justamente o contrário, para se convencer sobre uma determinada tese é preciso escondê-la sobre camadas de mentiras e falsidades, levando o ignorante a acreditá-la sem saber o que realmente está comprando.

Um exemplo é a afirmação que ocorrem um milhão mortes por abortos no Brasil. Quem primeiro afirmou isso sabe que estava criando uma mentira, mas era preciso estabelecer o aborto como uma questão de saúde pública. O ignorante é levado a aceitar o aborto não em si mesmo, mas como uma forma de evitar todas estas supostas mortes. Quem argumenta nestas bases é um sofista e busca apenas convencer, independente de ter razão ou não.

Os exemplos estão em toda parte, basta ler Paul Krugman ou Noam Chomsky. Não cito os brasileiros, como Emir Sáder ou Vladimir Safatle, porque  são incapazes de qualquer pensamento original, apenas repetem os pensamentos deste primeiro grupo. O mundo atual é  dos sofistas. Por isso se estuda Keynes nas universidades de economia no Brasil e se ignora Hayek; se estuda Maquiavel em ciências políticas e se ignora completamente  Eric Voegelin. E se estuda Rousseau! Santo Deus!

O Sofista de Platão tem uma mensagem triste e uma de otimismo. A triste é que voltamos 3000 anos no tempo. A esperança é que se foi possível surgir um homem como Sócrates para fazer a humanidade dar um gigantesco salto com a filosofia, por que não surgiria novamente? Claro que não será reconhecido, que será massacrado por esta sociedade doente, mas deixará o seus frutos que crescerão com o tempo e novamente derrotarão a mentira. Não veremos isso acontecer, mas fica a esperança para nossos descendentes.

Ora, a ignorância ocorre exatamente quando a alma que visa à verdade desvia-se do entendimento e não atinge a meta.

O retrato de uma sociedade sem substância

A Regra do Jogo (La Regle du jeu, 1939)

Poucas vezes vi uma sociedade retratada com tanta agudeza quanto neste clássico de Jean Renoir. Nele o fenômeno da segunda realidade, retratado inicialmente por Cervantes, ganha sua imagem no cinema, mostrando que ao retratar o mundo os artistas acabam por chegar no mesmo ponto, intencionalmente ou não. A realidade do mundo moderno é mais do que um mundo sem valores, ou niilista, mas um mundo divorciado do sentido do real.

Caçando coelhos
Caçando coelhos

As vésperas da segunda guerra mundial, um aviador francês é saudado como herói após atravessar o atlântico. O detalhe é que ele estava simplesmente repetindo a façanha do aviador americano Charles Lindbergh com 10 anos de atraso! No entanto, André Jureu, o aviador, ao invés de assumir o papel que se espera dele, reclama que a mulher que ama, e por quem teria feito o vôo, não foi recebê-lo como os demais. Na verdade, Christine é esposa de Robert, marquês de la Cheyniest, que aliás tem um caso com Geneviére, outra dama da sociedade.

A maior parte do filme se desenrola na casa de campo do Marquês, onde nobres e criados se entregam a caça uns dos outros, parodiando a caçada aos coelhos brilhantemente mostrada no filme. Praticamente todos possuem amantes e usam de todos os meios para conseguirem driblar os respectivos maridos e esposas, o que é copiado pelos criados, com menos meios do que os primeiros.

O fenômeno da segunda realidade, evidenciada pela primeira vez por Cervantes, mostra que o homem ao recusar o mundo real acaba por criar uma realidade própria a partir de alguns pressupostos simples. Dom Quixote cria seu mundo a partir das novelas de cavalaria, assim como os personagens de Renoir criam o seu a partir de alguns princípios que são mostrados aos poucos no filme, normalmente anunciado pelo farsesco Octave. A sociedade mostrada no filme é a mesma corte que Cervantes nos apresenta no segundo livro de Dom Quixote, um reino em que nobres entediados e fúteis passam a viver a aventura do cavaleiro andante, mergulhando de cabeça no seu mundo de sonhos. A segunda realidade toma o lugar da primeira.

Jureu evidencia o herói moderno que como Octave aponta, é capaz de grandes façanhas no céu mas que o chegar na terra é frágil e perdido. Basta pensar nos heróis de hoje, normalmente vindo do show business ou do esporte,  que fora de seus papéis se portam como verdadeiros idiotas. Em um mundo sem virtudes, um herói não tem onde se apoiar, e se torna apenas uma fonte de ilusões.

Octave: You have to understand, its the plight of all heroes today. In the air, they’re terrific. But when they come back to earth, they’re weak, poor, and helpless.

Mais do que a ausência de valores, o filme mostra os valores desordenados, isolados e enlouquecidos. O guarda caças Schumacher, por exemplo, diante da traição da esposa, a criada pessoal de Christine, parte enlouquecido para limpar sua honra. Em nenhum momento vemos um afeto sincero por Lisette, apenas a figura de um homem em defesa de sua propriedade. Ele não entende as regras do jogo.

Sociedade farsesca
Sociedade farsesca

A vida amorosa mostrada no Chateau não é mais que um jogo. Há muito pouca tensão sexual no filme e os personagens parecem se divertir mais com as caçadas e ardis do que com a realização da conquista. Robert, por exemplo, está entediado com sua amante, como normalmente acontece com quem se entrega a um jogo e consegue seu prêmio. Christine tenta resistir e sonha com o amor do tipo romântico, mas está sempre com um pé em cada mundo, perdida no meio de tantas ilusões.

O mundo dos criados é retratado como uma sombra da nobreza, emulando seus esquemas com os meios que dispõem. O problema é quando estes dois mundo se tocam e um mal jogador, como Schumacher, tem uma arma na mão. A farsa se transforma em tragédia, para depois se transformar em farsa novamente. Pelo menos enquanto durarem as ilusões.

Robert, ao contrário, é mestre do jogo. Consegue se colocar acima da situação da maioria, ironizando constantemente o próprio jogo que participa. Seu discurso para seus convidados no final do filme é antológico.

Renoir era membro da esquerda francesa, e já havia o embate cultural com os nazistas em seu país. Fiel ao esquema marxista, as duas classes são mostradas como mundos a parte, unidos por laços de fidelidade. Ou seja, na hora da confusão, o nobre ficará ao lado do nobre, o plebeu ao lado do plebeu. O sonho socialista que nunca se realizou pois a realidade é que a história do mundo não é a história da luta de classes, esta ficção que está mais na cabeça de alguns ideólogos do que na das pessoas comuns. Felizmente, como um bom artista, Renoir não consegue fugir da realidade; nobres e plebeus se unem e se afastam em torno das questões clássicas como simpatias, amizade e amor.

Sem dúvida um dos grandes clássicos do cinema, que merece ser visto e revisto. O filme talvez seja mais atual do que antes, pois o quadro que se mostrava na década de 30 é ainda mais evidente nos dias de hoje. Quem acha que a nobreza acabou, nunca parou para observar as novas elites, especialmente no show business, jornalismo, esportes, cultura, política. Comportam-se da mesma maneira que os personagens de A Regra do Jogo, com suas tragédias e comédias como a do goleiro Bruno, Pimenta da Veiga, Lindsay Lohan, Michael Jackson, Collor, Renan Calheiros e tantos outros exemplos de nossos heróis (ou anti-heróis) modernos.

Robert de la Cheyniest: [to Schumacher] I have no choice but to dismiss you. It breaks my heart, but I can’t expose my guests to your firearms. It may be wrong of them, but they value their lives.

Dark Knight Rises

Batman, o anti-revolucionário

Russell Kirk identificou como primeiro princípio conservador, e mais importante deles, a crença em uma ordem moral duradoura. O assunto é antigo e vem desde as reflexões de Sócrates e Platão, passando pelo trabalho monumental de Santo Agostinho e chegando aos pensadores ingleses da modernidade. Existe uma ordem moral independente do espaço e tempo, que vale para todo o sempre e está acima das sociedades humanas. O revolucionário acredita que a ordem é um produto da sociedade e fonte de todas as injustiças. Para que um novo mundo de justiça se estabeleça, trazendo o paraíso cristão para a esfera do mundo, é necessário destruir esta ordem e implantar um novo sistema de valores, mais adequado ao novo homem renovado, produto da revolução.

dark-knight-rises1
ordem x caos

Neste sentido, o Batman de Christopher Nolan é o anti-revolucionário por natureza, o que fica bem explícito no filme The Dark Knights Rises, de longe o melhor filme do cavaleiro das trevas feito para o cinema, superando o já excelente The Dark Knight. Não por acaso o filme tem por inspiração o clássico de Dickens “O Conto de duas Cidades”, primeira obra da literatura a mostrar a imagem verdadeira da revolução francesa.

Oito anos depois dos acontecimentos do filme anterior, Bruce Wayne encontra-se recluso, em clara depressão. O Batman foi aposentado e sem ele o milionário não encontra sentido para continuar vivendo. Lembrando do conceito de Victor Frankl, o sentido da vida é aquilo que só  você pode fazer; para Wayne este sentido é Batman. Um homem que vive sem esta noção de missão pessoal é uma presa para melancolia e depressão. Esta situação é fruto da  mentira que se estabeleceu como base da Gotham que emergiu do conflito com o niilismo do Coringa, que Batman teria matado o grande promotor Harvey Dent. Alguém já disse que nenhuma sociedade consegue se estabelecer dentro de uma ordem a partir de falsos princípios; Gotham exemplifica essa constatação. Por causa do desaparecimento de Batman, Wayne perde interesse por seus próprios negócios e por causa disso os lucros das empresas Wayne despencam. E com ela todo produto econômico de suas atividades, incluindo a filantropia.

Esse ponto é muito importante para conectar com o que vivemos hoje. Sem lucro não há filantropia pois nada resta para investir, seja na própria empresa ou seja na ajudo a quem precisa. Sem a dinâmica das empresas Wayne, toda ajuda deve se concentrar nas estruturas do estado, que sempre serão insuficientes para atender a todos. O resultado é uma Gotham claramente decadente e ressentida, um ambiente propício para surgir um contestador da ordem.

Esse homem é Bane, que como ele diz no primeiro confronto com Batman, nunca teve nada; a sociedade sempre foi para ele um peso, um inimigo. Enquanto o Coringa, representante do niilismo, queria destruir a ordem para implantar o caos; Baine é bem mais perigoso, quer destruir a ordem para implantar uma nova, que faça justiça a todos que estavam a margem da sociedade, sofrendo as suas consequências.

O símbolo da ocupação da bolsa de Gotham não é por acaso e não, não foi inspirada no movimento Occupy Wall Street, embora deixe claro a alienação  do movimento. A polícia se encontra reticente em invadir o prédio e se arriscar por causa do dinheiro dos ricos, quando alguém lembra a eles que não se tratava do dinheiro dos ricos, mas de todos eles, inclusive da pensão dos policiais.

Bane derrota Batman e toma o controle de Gotham, que nada mais é que Nova Iorque, estabelecendo um estado revolucionário; trata-se nada mais e nada menos que a revolução francesa, inclusive com seus tribunais revolucionários, chefiados pelo espantalho, onde a condenação já está definida entes de qualquer processo. A tão falada ordem burguesa é subvertida e a polícia de Gothan, que representa esta ordem, é aprisionada nos esgotos, onde anteriormente estava o exército de Bane. Fica clara a inversão de papéis na nova ordem.

Bane: We take Gotham from the corrupt! The rich! The oppressors of generations who have kept you down with myths of opportunity, and we give it back to you…the people…Gotham is yours. None shall interfere, do as you please!

catwoman
Achando que sabe tudo

A Mulher Gato é uma espécie de Robin Hood, roubando dos ricos que, segundo ela, possuem tudo enquanto a maioria nada tem. Por diversas vezes trai Batman, chegando a entregá-lo a Bane. Ela é como a imensidade de inocentes úteis, revoltados com a ordem existente e que anseiam por uma revolução, por colocar tudo de pernas por ar. Quando a revolução chega finalmente, descobre que a coisa não é tão bonita como achava que seria e trata de se mandar.

Agora, um aviso: quem não quiser saber o fim do filme, pule direto para a conclusão. A partir daqui continue por sua conta e risco.

Finalmente temos a pessoa da Madame Defarge, no filme a executiva ambientalista Miranda Tate, que na verdade é Talia al Ghul. Ela está por trás de Bane e por baixo de seu suporto amor pela natureza está o ódio ao ser humano e seu desejo escatológico de vê-lo desaparecer do planeta. Parece familiar? Por trás de todo revolucionário existe um poder dentro da ordem, apenas querendo eliminar concorrência para se tornar absoluto.

Como em Um Conto de Duas Cidades, fica patente que todo o chamamento por justiça é apenas um jogo de palavras, o que o revolucionário quer é vingança contra todos que acredita ser causadores de seu sofrimento. Por isso o tribunal revolucionário é uma grande mentira, seus réus já estão condenados simplesmente por pertencerem a determinado agrupamento humano e não por seus atos efetivos. Alguns nobres acreditaram que poderiam se beneficiar da Revolução Francesa por estarem a favor do “povo”; terminaram na guilhotina junto com os demais. Assim com Robespierre, ou o Bane, na versão de Nolan.

Finalmente temos Batman, que como Sidney Carton, deve passar por uma verdadeira revolução íntima para entender que deve ser capaz do último sacrifício para combater o mal que se espalha com a subversão da ordem.  Para salvar Gotham, Batman vai precisar se sacrificar, como Carton. Isso fica claro no diálogo com a mulher gato:

Selina Kyle: Sorry to keep letting you down.Come with me. Save yourself. You don’t owe these people anymore, you’ve given them everything.
Bruce Wayne/Batman: Not everything. Not yet.

Conclusão

Dark Night Rising é um film rico em significados e simbolismos, principalmente com sua fidelidade à realidade. O mundo fantástico retratado por Nolan é o espelho do mundo em que vivemos, onde forças revoltadas ameaçam a todo tempo destruir a ordem imemorial que existe na eternidade do tempo. Batmam é o símbolo que luta contra esta grande mentira, de que podemos criar uma nova ordem contrária a esta, pois sabe, instintivamente ou não, que o resultado será o caos, um mundo sem honra e virtudes verdadeiras.

O mundo dos revolucionários, conforme o construído por Bane em Gotham, não pode durar pois baseia-se no que a humanidade tem de pior, o ódio. Nada construído sobre o signo da mentira, ou seja, que rompa com o real, pode durar muito tempo na história e só gerará sofrimento enquanto durar. É produto de monstros morais, que desprezam o ser humano concreto, em nome de alguma idéia de novo homem renovado, fruto da revolução. Essa escatologia adaptada da escatologia cristã é a grande fonte do mal em nosso tempo e ainda continua presente no coração de muita gente que simplesmente não aceita o mundo como ele efetivamente é.

O problema é que os Batmans do mundo são cada vez mais raros e os revolucionários descobriram que podem subverter a ordem de dentro dela, sem rupturas dramáticas, apenas esvaziando a ordem de todo seu sentido verdadeiro. Mas esta é outra estória, ou outro filme.

Dark Night Rising, apesar dos exageros de um filme de ação, consegue se colocar bem acima de quase todos os filmes do tipo, a ponto de se questionar se é na verdade um filme de ação, pois consegue o que há mais de 2000 anos o sábio Aristóteles defendia no seu livro Poética. O sentido da arte é imitar a realidade e explorar os limites das possibilidades humanas. Coisa que Nolan fez com maestria.

Filmes na viagem

Com um bom atraso, faço o registro dos filmes que vi na viagem para o Brasil, durante os vôos.

The Shop Around the Corner (1940)

Um dos grandes problemas da comunicação são os mal entendidos. Os efeitos são ainda mais dramáticos quando a comunicação deficiente se dá entre pessoas boas, que se querem bem, gerando toda espécie de sofrimentos desnecessários. No filme, baseado em peça de teatro, existem basicamente duas comunicações problemáticas, as duas tendo Kralik, personagem de James Stewart, como pivô.

Na primeira, há algo evidentemente fora do lugar na comunicação entre ele e seu chefe. Durante anos ele foi o braço direito na loja de Matuschek, em Budapeste, mesmo tendo a impertinência de muitas vezes contrariar seu patrão, mas sempre dizendo a verdade. Seu contraste evidente é com Vadas, sempre pronto a agradar o patrão e buscar seus benefícios. No entanto, algo acontece provocando a deterioração no relacionamento de kralik.

Na segunda comunicação, entre Kralik e a recém contratada Miss Novak, existem dois planos distintos. No primeiro, fruto de um começo tumultuado, os dois não se suportam e trabalham sob constante atrito. No segundo, se correspondem como admiradores secretos, sem saber quem é o correspondente, e  a comunicação efetivamente se estabelece. É fácil ver que no primeiro caso, as aparências causam o engano e no segundo, livre dos preconceitos estabelecidos, há uma ligação afetiva de duas almas que se encontram.

O filme You’ve Got Mail (1998) usou a segunda situação como base. Esqueçam. Fiquem com o original pois, como acontece na maioria dos casos, é bem melhor e mais rico. Um excelente filme.

The Big Sleep (1946)

Um dos clássicos do filme noir, com suas tramas cheia de reviravoltas e que no fundo se sustenta na química entre o detetive particular Marlowe (Bogart) e uma rica herdeira Vivian (Bacall, deslumbrante). Howard Hawks recrutou um time de primeira para escrever o roteiro, entre eles simplesmente William Faulkner, que é simplesmente uma maravilha em si. Um show de tiradas e ironias mordazes, especialmente entre seus protagonistas.

A trama da investigação de uma chantagem conduz a uma série de assassinatos e é tão intricada que em determinado ponto você desiste de entendê-la e se deixa levar pelo espetáculo. O filme se baseia em um livro de Raymond Chandler e o próprio autor deixa passar um assassinato sem a devida explicação, mostrando que a investigação é o verdadeiro assunto do filme.

The Dark Knights Rising (2012)

Ultimamente tenho sido reticente com filmes de ação e por pouco não deixo passar o melhor filme do Batman, e toda riqueza que se esconde debaixo de explosões e perseguições de carro, moto, etc. No meio do filme fica evidente que a principal referência do filme é um clássico de Dickens, o maravilhoso Conto de Duas Cidades. 

Neste filme Batman mostra com toda força sua natureza anti-revolucionária. Antes de tudo é um defensor da ordem.

Estou trabalhando em um texto especial sobre este filme. Paro por aqui.

Sunrise: A Song of Two Humans (1927)

Caminho para redenção

Muitas vezes, ao cairmos, nos perguntamos por que não fizemos diferente, por que na última hora não desistimos de praticar o mal. Principalmente quando percebemos que o prêmio não era tudo o que imaginávamos e que o sofrimento que provocamos era absolutamente desnecessário e pior, que atingia pessoas que realmente amamos. Pois o diretor alemão F. W. Murnau filma uma autêntica obra de arte ao retratar um homem que no momento derradeiro recua e deixa de praticar o ato extremo de maldade, o de retirar uma vida humana.

Sunrise 2

O filme conta a estória de um fazendeiro que vivia feliz com sua esposa e seu bebê, iniciando um família, até que uma mulher da cidade surge e se tornam amantes. Há algo na sofisticação, na falta de escrúpulos de mulheres assim que encanta e é capaz de levar homens simples a perder completamente o bom senso. É o que acontece com o protagonista que recebe a proposta definitivamente da amante: matar a esposa e fugirem para a cidade.

O homem reluta mas finalmente acaba cedendo à tentação e visivelmente transtornado leva a esposa para um passeio através do lago, onde pretende afogá-la. A presença do mal no mundo ensina que qualquer homem é capaz de matar, mesmo o mais simples e honesto, mas sempre achei que um homem assim deveria estar fora de si para cometer tal ato. É justamente o que Murnau retrata com absoluta beleza. O filme é mudo, o que só evidencia o extraordinário talento que George O’Brien ao carregar todo seu conflito interior em suas expressões faciais. Ele nos apresenta um repertório completo: alegria, alívio, tristeza, dor, arrependimento, desejo, ódio, sofrimento. Impressionante.

Pois no último momento, quando sua esposa se defende apenas com as mãos junto ao peito, como se fosse orar, e escuta os sinos da Igreja, o fazendeiro consegue romper a ligação com a maldade em seu próprio coração e deixa de praticar o ato torpe. O milagre pode se esconder em pequenas coisas, como o toque de um sino na hora crucial. 

O que se segue é a sua jornada de redenção. Depois de atravessar o lago, seguem até a cidade onde ele mostra todo o arrependimento até conseguir o perdão de sua esposa. Amar é saber perdoar e o clima dramático do filme é quebrado pela redescoberta do amor ou mesmo da sua verdadeira descoberta. Pode ser que só naquele instante, quando esteve a ponto de perder a esposa, tenha entendido de fato a sua importância.

Sunrise

Felizmente muito poucos chegam a assassinar o outro diante da promessa de uma felicidade absoluta em um novo relacionamento que parece muito mais excitante e sofisticado. Infelizmente muitos chegam a romper os laços e terminar uma família para viver esta aventura. Boa parte se arrepende  e se lamenta porque não recuou no último momento, porque não interrompeu a marcha da insensatez enquanto era tempo. 

O fazendeiro, Murnau não usa nenhum nome no filme, consegue evitar o ato sem volta, mas enquanto se diverte com a esposa na cidade, as imagens da amante pensando no crime que ele deveria estar cometendo mostra que nem tudo acabou, que o mal ainda pode se apresentar se nos abrirmos a ele. O destino ainda reservaria ao fazendeiro uma última provação pois não basta apenas se arrepender do pecado, é preciso repará-lo.

Um filme maravilhoso em todos os aspectos. Arte na sua expressão mais ampla, usando todos os recursos que a tecnologia da época podia fornecer e nos apresentando imagens geniais como a “possessão” do fazendeiro pela amante quando ele decide levar adiante o crime, o sofrimento na Igreja ao ouvir um padre relembrar a responsabilidade que se associa a um casamento ou a mudança que uma simples barba feita consegue provocar. Uma verdadeira aula de cinema, uma arte que estava apenas começando.

The Adventures of Tom Sawyer

Mark Twain foi um dos autores, ou o autor, que definiram a cara da literatura americana. Influenciou e continua a influenciar quase todos os escritores que vieram depois e foi com Tom Sawyer que essa linguagem começou a se estabelescer, com a inocência de um menino diante do mundo.

Apenas através da consciência de um garoto seria possível mostar esta visão crua, e sincera, da experiência americana, um mundo em que a auto-confiança em determinados princípios ou valores convive lado a lado com a incompreensão e hipocrisia. Junto a tudo isso, a eterna promessa da redenção.

Tom Sawyer é um garoto inquieto, centrado em si mesmo, sempre pensando na próxima aventura. O mundo da escola, igreja e comunidade lhe parece insuficiente para uma vida completa. Com uma lógica simples, e irresponsável, ele não mede esforços para realizar seus mínimos desejos e caprichos. Embora coloque em segundo plano a questão moral, como por exemplo deixar sua tia acreditar que estava morto, nos grandes testes que o destino lhe reserva tem que lidar com sua consciência, mostrando que existe uma lei natural, uma ordem eterna, que é impossível fraudar sem sentir o chamado para fazer a coisa certa.

O livro é um painel para a própria noção de moralidade para os americanos, com seus valores e hipocrisia também, pois, como diz as escrituras, nenhum de nós é justo. O que nos salva é a promessa de redenção que acompanha uma vontade natural de vazer o certo.

Muitas vezes Tom Sawyer, o livro, é descrito como a passagem de uma vida irresponsável da juventude para o de responsabilidades da vida adulta. Pode ser. Eu já vejo o livro como uma jornada de auto-conhecimento, que nada tem a ver com o envelhecimento em si, mas com a abertura para perceber em si mesmo o impulso moral correto que o criador nos imprimiu. Os antigos chamavam disso a verdade e não por acaso o maior deles clamava que o destino do homem era conhecer a si mesmo.

Através das suas aventuras, Tom é impelido a contemplar a verdade. Nesse momentos alguns homens escolhem fugir delas e se agarrar a uma visão particular confortável. A outra forma de lidar com a verdade é ter a humildade de entender o próprio erro e mudar a atitude, seguindo os ditames de uma consciência iluminada por Deus que sabe a importância de ser fiel à realidade, em amar a verdade.

As aventuras de Tom Sawyer são as aventuras de todos nós. Assim como sua encruzilhada. Cabe a cada um fazer suas opções e conviver com os resultados, inclusive o da auto-ilusão.

The Tempest (W. Shakespeare)

O que você faria se tivesse o controle total sobre seu inimigo, aquele que tirou seu reino e o despojou de tudo que tinha? É a vingança perfeita, basta agora executá-la. É para chegar nesta situação que Shakespeare constrói cada detalhe da peça A Tempestade, possivelmente sua última.

Anos depois de ter sido traído por uma conspiração que uniu seu próprio irmão com outros dois nobres, Próspero encontra-se em uma ilha no Mediterrâneo. Vivem na ilha apenas sua filha e seus dois servos, o espírito Ariel e o filho de uma bruxa que vivia no lugar, Calibã. Usando da magia, conjura uma tempestade justamente quando seus algozes passavam de navio, retornando de um casamento. Ocorre o naufrágio e usando os préstimos de Ariel, Próspero os isola em pequenos grupos. 

A partir dessa situação, vários temas são abordados.

Calibã mostra que o mantra que a educação resolve todos os problemas é uma furada. Tratando-o com dignidade desde que chegou a ilha, Próspero dedicou-se em educá-lo e mostrá-lo o caminho da virtude. Seus esforços foram em vão e Calibã cresceu rancoroso e vingativo, desejando o dia de ter a ilha só para si, chegando ao ponto de tentar violentar Miranda, a filha de Próspero.

Antonio e Sebastian, que haviam conspirado para colocar Antonio no lugar de Próspero, aproveitam a situação, crendo que o herdeiro Ferdinand está morto, para tentar eliminar Antonio e ter o reino para eles. Os conspiradores de hoje são os inimigos de amanhã. Quem trai uma vez, trairá novamente quando tiver a oportunidade.

O romance entre Miranda e Ferdinand é parte da vingança de Próspero, que dessa forma se une definitivamente ao pai dele, Antonio. 

Por fim, tendo controle absoluto da situação, Próspero pode escolher o caminho a seguir. 

Yet with my nobler reason against my fury

Do I take part. The rarer action is

In virtue than in vengeance.

Eis a grande lição da peça de Shakespeare. O perdão é a mais nobre resposta para quem agrediu, o ensinamento cristão por natureza. Observem que Próspero age contra sua própria raiva, em nome da razão, e perdoa seus algozes. A vingança apenas prolonga o ódio, por vezes por gerações, e precisa ser quebrado em algum momento, como ensina uma outra peça bem mais antiga, Eumênides de Ésquilo, que já resenhei aqui.

Não por acaso, trata-se da peça mais grega de Shakespeare. Inclusive com a participação de algumas deusas, conjuradas por Próspero. Além do uso da magia pelo protagonista da peça. Ressaltar os dilemas morais da humanidade era um dos propósitos das tragédias gregas, justamente o que Shakespeare faz na peça. O que leva Miranda, ao observar o primeiro grupo humano em sua vida, dizer a célebre passagem:

Oh, wonder!

How many goodly creatures are there here!

How beauteous mankind is! O brave new world,

That has such people in ‘ t!

Se os gregos não tinham solução definitiva para o dilema da vingança, que termina na Orestéia com o voto de Minerva absolvendo Orestes da morte da mãe para interromper uma escalada que nada poderia produzir de bom, Shakespeare tinha a seu dispor toda a filosofia cristã e o instrumento do perdão. Sim, por vezes as pessoas nos machucam de alguma maneira, mas a vingança pode apenas trazer uma satisfação momentânea. Só o perdão sincero pode restabelecer laços rompidos e seguir adiante. Como Próspero fez com Antônio.