O sacrifício pode ser fácil, principalmente dos outros.

Quantas vezes é necessário um sacrifício para se livrar de um problema? Mas quem estará disposto a realizar este sacrifício, principalmente quando é em favor de outra pessoa? Ou, colocando em outras palavras, até que ponto é justo exigir um sacrifício de outra pessoa para nos salvarmos de um determinado destino? Este é o tema principal da peça Alceste, de Eurípedes.

Juntamente com Sófocles e Ésquilo, Eurípedes forma o triunvirato dos grandes trágicos de Atenas. Contemporâneo de Sócrates, o questionamento moral e político do filósofo aparece em suas peças, que tiveram profunda influência sobre a dramaturgia moderna, especialmente em Shakespeare. Alceste é sua peça mais antiga sobrevivente, quarta de uma tetralogia perdida, encenada pela primeira vez em 438 A. C.

Conta a história de Admeto, rei de Féres, que deveria estar morto mas foi salvo por um acordo de Apolo com as Parcas. Sua vida seria poupada, desde que alguém fosse voluntário para morrer em seu lugar. Nem seus pais idosos, nem seus amigos mais fiéis, aceitaram o sacrifício; coube à sua esposa, Alceste, se apresentar. Apolo ainda tenta intervir mais uma vez com Tânatos, enviado de Hades, que vem buscar sua vítima, mas em vão; Alceste deve partir. Ela morre e ao mesmo tempo chega ao castelo Hércules, que encontrava-se cumprindo seus 12 trabalhos em busca de hospedagem. Admeto o engana dizendo que uma pessoa distante acabara de morrer para que o heróis não recusasse a hospedagem. Ao saber da verdade, Hércules resolve tentar trazê-la de volta.

Inicialmente a peça se apresenta como uma reflexão sobre a morte e a constatação que existe uma ordem natural para que ocorra; os pais devem partir antes do filho. O próprio Apolo cobra de Tânatos que este deveria “preferir aqueles que tanto tardem em morrer”. Este responde: “quando morre quem está na flor da idade, bem maior é minha glória!”, mostrando que a morte dos mais novos é sempre um acontecimento de maior dramaticidade e de aparente injustiça.

A questão principal, entretanto, é a do sacrifício. A revolta maior de Admeto é com os próprios pais, que já idosos recusaram-se ao sacrifício. 

Tu devias chorar, quando eu estava prestes a morrer; mas ficaste de longe, deixando que se sacrificasse outra mais jovem, velho como és!

O pai, Féres, responde com a verdade avassaladora:

Se te apraz contemplar a luz, pensas que que o mesmo não se dê comigo? Bem sei que longo tempo, muito longo tempo mesmo, eu permanecerei sob a terra; o que me resta da vida terrena é pouco, mas é doce! Tu, que te debateste vergonhosamente contra a morte, tu vives, sim; transpuseste o passo fatal, mas à custa de tua esposa! E agora censuras a minha covardia, tu, infame, suplantado em coragem por uma mulher, que se deixou morrer por ti, belo rapaz!

Essa é a questão essencial da peça. Por que haveria de alguém realizar um sacrifício que o próprio Admeto poderia realizar? Como pode ele aceitar que sua esposa, amada e fiel, pudesse ir em seu lugar? Que direito tinha de exigir de alguém que fizesse o que ele próprio não tinha coragem? Apegou-se no racionalismo que seus pais teriam o dever de dar a vida para salvá-lo, mas nestas circunstâncias?

Trazendo para nossa realidade diária, não vemos isso o tempo todo? Troquem a morte por outro sacrifício qualquer, como o político que entrega a cabeça de um assessor para salvar a própria, ou o presidente que entrega a de um de seus ministros, o chefe que deixa um subordinado ficar com uma culpa, o marido que espera que a esposa ligue para o 0800 da net porque ele acha aquilo uma chatice. Tem exemplos para todos os outros, mas sempre o mesmo princípio, o outro tem menos a perder que ele. Do mesmo jeito que os pais de Admeto eram idosos e teoricamente não perderiam muito com a troca, o político pensa de seu assessor, o chefe do subordinado, o marido da esposa ou a esposa do marido. O pai que deixa o filho assumir uma culpa pois ficaria bem mais grave se soubessem que foi ele o autor de determinada ação. No fundo, a fuga da responsabilidade pelos próprios atos.

A peça termina com uma mudança em um destino que parecia definido, mostrando que nem tudo é irreversível. A melhor conclusão fica para as palavras do próprio coro, a consciência moral das peças gregas, que omito a última frase para não contar o final:

Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestaram-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses.

 

PS: Para ficar com um exemplo concreto, o mensaleiro João Paulo Cunha, do PT,  mandava a própria esposa recolher sua parte do butim de Marcos Valério no Banco Rural para que se fosse necessário ela assumisse a presença no banco em seu lugar. Em um primeiro momento, quando apareceu apenas a lista de entrada no banco, ele não teve dúvidas em dizer que ela foi apenas pagar uma conta da tv a cabo. Quando surgiu as assinaturas e a lista de quem sacou dinheiro no banco nas contas de Valério, a estória caiu por terra. Hoje o prezado deputado, mesmo condenado pelo STF e aguardando sua cela, é membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, mostrando o atual estágio de degeneração da democracia brasileira. 

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Orestéia, um exemplo da divisões da retórica proposta por Aristóteles

Na peça Eumênides, depois de ser perseguido pelas fúrias, Orestes busca abrigo em Apolo. Elas não se conformam com a proteção e clamam por vingança pois Orestes matara a mãe para vingar o assassinato do pai, o rei Agamenón. Atenas, personificando a sabedoria, surge para resolver a questão. Após entender o que estava acontecendo, a deusa institui um tribunal, convocando juízes para julgarem Orestes pelo assassinato cometido.

O que se vê a partir desse ponto da peça é a exemplificação dos tipos de discursos retóricos descritos por Aristóteles em sua obra Retórica. Para o filósofo, a retórica trata da faculdade de observar os meios de persuasão disponíveis em um determinado caso. Em outras palavras, da arte de persuasão.

Em nossos tempos, a palavras assumiu uma conotação pejorativa, sinal de falta de substância real no discurso. É comum escutarmos nos debates políticos a crítica a algum candidato que teria apenas discurso retórico. Para os gregos, a retórica era o instrumento de persuasão por natureza, e como qualquer instrumento poderia ser utilizado para o bem ou para o mal. Não por acaso foi uma disciplina estudada até o fim da idade média, tanto para utilizá-la corretamente quanto para desmascarar as farsas. O importante é que a retórica poderia e deveria ser um instrumento da verdade e não uma forma de enganar alguém.

A retórica seria dividida em três tipos a saber: 1) político, 2) jurídica e 3) exibcional. Estes tipos referem-se ao receptor do discurso e tratam dos três tipos de tempo. O político estaria voltado par o futuro, o jurídico para o passado e o exibcional para o presente. Estes três tipos aparecem nos discursos proferidos durante o julgamento de Orestes.

Começando pela retórica jurídica, em que objetivo é persuadir o ouvinte sobre o que teria acontecido, inicia-se o julgamento de Orestes.

Segundo Aristóteles, o discurso político ataca ou defende alguém; uma das duas coisas são sempre feita por cada parte no caso. As partes visam o estabelecimento da justiça ou injustiça sobre determinada ação; todos os demais aspectos são subsidiários.

O objetivo é tentar saber o que aconteceu. Afinal, Orestes matou ou não sua mãe? Discute-se também as circunstâncias em que teria sido cometido o crime. No caso, Orestes teria sido persuadido pelo próprio deus Apolo para fazer justiça pela morte de Agamenón.

Corifeu: Dá a cada pergunta uma resposta lúcida; dize primeiro se mataste sua mãe.

Orestes: Matei-a sim, e não posso negar o fato.

(…)

Corifeu: Revela, então, como te atreveste a matá-la?

Orestes: Direi: com minha espada cortei-lhe a garganta.

Decidido a questão, incia-se a retórica exibcional, que tem por objetivo o presente; no caso, a culpabilidade de Orestes. Seu ato é digno de elogia ou censura? Foi justo ou não? Tratou-se de justiça ou vingança? Foi uma questão de honra ou um motivo de desonra?

Desta forma, o ato em si é julgado. Não se trata mais de definir o que aconteceu, mas do julgamento ético deste mesmo ato. Os parâmetros agora se refere à natureza da ação de Orestes e define-se o resultado do próprio julgamento; afinal, culpado ou não? Digno de elogio ou censura?

Orestes:

Dá-nos agora, Apolo, teu depoimento:

explica claramente se quando a matei

agi de acordo com os ditames da justiça.

Não vou negar a prática do ato em si,

mas desejo saber se em tua opinião

este homicídio pode ser justificado;

desfaze as minhas dúvidas e as dos juízes.

Orestes é absolvido mas as fúrias não se conforma e querem prosseguir em seu desejo de vingança. Atenas discute com elas e usa o terceiro tipo de retórica, a política.

Trata-se de uma discussão que tem por objetivo decidir a ação a tomar. Atenas quer persuadi-las de encerrarem de uma vez o processo vingativo.

Os argumentos referem-se à conveniência ou inconveniência da decisão que as fúrias tomarão. Devem prosseguir ou não? Quais as implicações?

Atenas:

Vossa vontade é derramar sobre esta terra

a vossa ira; peço-vos que reflitais

em vez de agir obedecendo aos vossos ímpeto;

não insistais em tornar este solo fértil

deixando de transbordar de vossos lábios sacros

uma espuma raivosa que destruiria

todos os germes produtores de alimento.

Nos três casos, o discurso retórico é adaptado para o objetivo. Quando se pretende determinar o que Orestes fez, pouco vale a conveniência do ato, que só passa a ter signficado após se concluir sobre o que aconteceu. O que fazer a partir daí, definido a culpabilidade de Orestes, é assunto político, mesmo que no meio de um tribunal. Os discursos não são totalmente estanques, mas para cada divisão da retórica alguns elementos serão preponderantes sobre os demais.

Um julgamento possui estes três tipos de retórica. Primeiro é preciso concluir sobre o que aconteceu; depois sobre o significado do ato; por fim, sobre a extensão da pena.

O julgamento de Orestes, portanto, é uma demonstração didática das três dimensões da retórica, e o mesmo acontece em qualquer julgamento legal. A mesma análise se dá sobre o julgamento do mensalão, que pode ser resumido em três questões:

1) O que os réus efetivamente fizeram?

2) O que significar os atos praticados?

3) Qual deve ser a pena a ser cumprida?

Aristótels sempre será estudado não só por sua importância histórica, mas pela atualidade de sua filosofia. Depois de milênios podemos observar que o mundo não mudou tanto assim.

O Remorso de Orestes
O Remorso de Orestes (Bouguereau)

Justiça ou vingança?

De tempos em tempos as nações são abaladas por crimes de grade repercussão. Nos dias de hoje, o extraordinário avanço dos meios de comunicação permite que essas notícias cheguem a todos com muito mais rapidez. Quase que em uníssono escutamos o brado de revolta: justiça!

Mas será esse realmente o nosso desejo? Confesso que na maioria das vezes que escuto a palavra justiça, principalmente quando bradada com fúria, sempre péssima conselheira, algo dentro de mim se revolta e tenta me indicar que o termo justiça está incorreto, o que as pessoas realmente querem é vingança. Muitas vezes um termo se confunde com o outro, mas quando pedimos a condenação de um criminoso , cujo crime nos revoltou, o que queremos realmente? Vingança ou justiça? Justiça ou vingança? Ou ambas?

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