Sorte?

Match Point

Woody Allen

 

A sorte é uma coisa curiosa. Afinal, podemos saber com certeza o que é bom para nós? Algo que a primeira vista pode ser um golpe de sorte, pode se revelar um instrumento de azar. Quando o objeto da sorte é o castigo, a coisa fica ainda mais complexa. Qual o maior castigo para um pecador? A justiça? Ou há alguma forma de punição maior que enfrentar a punição dos homens?

ImagemChris é um jogador de tennis profissional que chegou quase lá; faltou-lhe um degrau para ser um dos grandes. Para ele, assim como no esporte, a vida muitas vezes depende de um golpe de sorte, que pode ser resumido no lance em que a bolinha bate na rede e por uma fração de segundo deixa o suspense sobre qual lado da quadra cairá. Disposto a subir de vida, resolve dar aulas em um clube da elite britânica e acaba rapidamente caindo nas graças de uma família da aristocracia. Fica noivo de Chloe, e tudo parece caminhar bem até que conhece a noiva de Tom, o herdeiro da família. Nola é uma americana, aspirante à atriz, odiada pela matriarca da família.

A estória de adultério é clássica e contada mil vezes no cinema, mas essencial para o que Woody Allen pretende com seu filme. Tudo muito bem narrado, com bons diálogos, boas interpretações, mas com algumas situações que mostram o olhar arguto de um grande cineasta.

Aparentemente não há personagem de má índole no filme. A própria família Hewit são vistos como pessoas boas, extremamente ricas, mas uma família unida, que se ajuda e que costuma fazer bom uso de suas riquezas. Muito diferente do que usualmente se mostra no cinema. Não há espaço para a luta de classes, o que poderia afastar o olhar do telespectador do verdadeiro assunto que está sendo tratado. Chris é um alpinista social, mas realmente se esforça para fazer bem sua parte no emprego que o sogro lhe arrumou, de ser um bom marido e um membro da família. Não há ressentimento nele, não há aquela justificação toda de revolta contra as altas classes; ao contrário, seu sentimento é de admiração e desejo de ser parte do clube.

Nola também é uma personagem até certo ponto enigmática. Quer realmente ter sucesso como atriz e se mostra até como um oposto de Chris. Não pretende jogar o jogo da família, ser agradável e simplesmente se tornar membro dessa aristocracia. Seu relacionamento com Tom parece desinteressado, quase como um acidente de percurso. Um certo descontrole na bebida mostra que algo vai errado em seu íntimo, e o motivo só se revela na parte final.

É justamente na parte final que Allen mostra a diferença de um grande cineasta para um comum. Após a sequência de amor, encantamento, rotina e uma gravidez, Chris não quer mais perder a vida que se acostumou e Nola passa a ser um obstáculo, embora isso não fique bem claro até a hora em que resolve solucionar o empasse. Aí o grande filme se mostra, ao contrário de Dostoiévsky, o crime e castigo se torna crime sem castigo, ou não?

Um golpe de sorte, uma aliança que bate em uma murada, como uma bola de tennis sobre a rede, parece condenar Chris. Pelo menos é essa impressão que fica na mente do espectador; mas a vida tem sutilezas, e a aliança acaba salvando-o. Mas salvando-o do que? A última cena do filme, em que Chris contempla o Tâmisa do seu apartamento mostra que se pode enganar os homens, mas não a própria consciência.

Afinal aquela aliança foi sorte ou azar? Prestem atenção no último diálogo de Chris com Nola, em que ela fala para ele sobre o descuido e a série de pistas que deixou para trás. Ela diz que foi quase como se quisesse ser pego. Será? Talvez Chris quisesse o desfecho completo, e a expiação de suas culpas, o que só ocorreria com a descoberta da verdade. A aliança, mais do que salvá-lo, condenou-o a viver com sua própria consciência. Pode ter escapado da justiça dos homens, mas nunca enganará a si mesmo.

Não por acaso, neste mesmo diálogo Chris cita uma passagem de Sófocles em Édipo em Colono. Nessa peça, Édipo está justamente tentando expiar suas culpas e conviver com sua própria consciência. A estória de Édipo, tantas vezes retratada como um problema psicológico de desejos reprimidos, é na verdade um maravilhoso ensaio sobre a culpa e a consciência dos próprios atos.

Outra pista sobre o tema da película é o fato de Chris estudar Crime e Castigo em seu início. Nenhuma referência sobre no filme, tudo tem um sentido. O patriarca da família comenta que se interessou bastante pela abordagem do futuro genro sobre a obra do grande escritor russo. O problema da justiça já se colocava para Chris desde o início.

Um grande filme de Allen que abre espaço para muita reflexão, além de uma bela homenagem à Londres, com imagens belíssimas e uma exaltação de sua vocação artística. Um drama humano bastante real e até certo bastante comum, mas que nas mãos da pessoa certa se torna uma obra de referência.

Roma e todos os lugares

 

Para Roma, com Amor

Continuando seu giro pela Europa, Allen dessa vez coloca a cidade de Roma como personagem principal de seu filme. A partir de 4 estórias diferentes, explora a cidade e os tipos italianos por excelência: os interioranos recém casados que chegam à cidade, o cantor amador, o jovem idealista comunista, a prostituta, o famoso perseguido pelos paparazzi. No meio de tudo isso, americanos interagem e tentam se relacionar com a cidade e os italianos.

Allen explora os esteriótipos com que os americanos enxergam os italianos e as coisas da Itália: o romance, adultério, prostituição com amor, a fama sem merecimento, o possível artista escondido em cada um, a irracionalidade de alguns atos e pessoas. Exatamente essas diferenças, essas coisas pitorescas, que atraem turistas do mundo inteiro, além de toda a bagagem cultural da cidade e suas ruinas.

Particularmente, é justamente o contrário que me atrai em todas as civilizações, o comum. Pois é o que temos em comum que define a nossa humanidade. Não é o fato de se ter um barítono cantando no banheiro que acho interessante, mas que uma pessoa simplesmente cante no banheiro! Que uma pessoa comum tome seu café da manhã com a família antes de ir trabalhar, que depois tenha uma conversa com os colegas de trabalho analisando a economia de seu país como se soubesse todas as respostas. Que um jovem casal faça planos logo após o casamento, que um jovem seja tentado pela melhor amiga da namorada. Que uma pessoa se torne famosa por motivos absolutamente incompreensíveis e que justamente por isso, perca toda sua fama.

Para Roma, com amor não é tão inspirado como o filme anterior de Allen, Meia Noite em Paris, o que já seria difícil tendo em vista a excelência deste. Mas diverte e rende uma boa homenagem à essa cidade tão cara para o mundo ocidental. Talvez algumas personagens e situações tenham ficado esteriotipados demais, até certo ponto forçadas, assim como algumas soluções que me pareceram apressadas e descuidadas, como a do jovem casal e da amiga/amante atriz. Mesmo assim os rompantes de genialidade de Allens estão presentes, assim com muitos de suas marcas artísticas, o que de saída já o coloca bem acima da média do cinema filmado por aí.