Outro dia me cobraram um post sobre o que achava da renúncia do papa. Eu tinha a impressão que tinha escrito a respeito e fui conferir. Realmente, falei da minha admiração por Bento XVI, que considero o maior intelectual vivo, mas não disse o que achava de sua renúncia.

Fiquei pensando, pensando e cheguei a conclusão que não tenho absolutamente nada a dizer. Simplesmente porque não sei nada a respeito. Nada entendo de política do Vaticano, não sei as intenções do papa, das supostas pressões. Nesse ponto estou como Sócrates, só sei que nada sei. E desconfio que quase 100% do que estão vendo na imprensa vem de gente que sabe menos ainda do que eu. Quanta bobagem! Quanta barbaridade!

Pode ser que Ratzinger, que acompanhou bem de perto todo o pontificado de João Paulo II, não quisesse o mesmo destino, ou seja, sofrer a decrepitude em praça pública. Vejam, antes dava para esconder o papa e tocar no piloto automático. Hoje, na época do Big Brother, é impossível. A imprensa e os inimigos da Igreja Católica estão lá, prontos para explorar cada segundo.

Pode ser que Ratzinger estivesse cansado da política papal. Afinal, é um intelectual, um teólogo e não um homem político, um homem de ação.

Sobre uma conspiração que o forçou a renunciar, duvido muito. Fosse tão fácil um papa renunciar teríamos tido algumas nos últimos séculos não é verdade? Além do mais, a renúncia pegou toda a imprensa de surpresa. Uma conspiração sempre deixa pistas, o que me parece sinal de que foi realmente uma decisão íntima e pessoal deste grande homem.

O que vai ser daqui para frente? Eu sei lá! Só espero que os cardeais não escolham um desses moderninhos que acham que a Igreja pode violar alguns de seus fundamentos para se adaptar ao mundo. Espero, sinceramente, que Ratzinger possa influenciar na escolha para ter um homem de ação, um líder religioso, com a cabeça no lugar.

A imprensa mundial já começa sua pressão para que a Igreja escolha um nome moderno, para provar que está “atenada” com os novos tempos. É a mesma que empurrou os americanos a votarem no orelhudo para provar que não são preconceituosos. Querem que a Igreja deixe de ser Igreja, só assim ficarão felizes. Vão rezar para seus santos seculares! Deixem os católicos em paz!

Como ex-católico tenho minha diferenças com a Igreja. Acho que o concílio de Constantinopla II foi para o caminho errado quando enterrou a teoria da pré-existência da alma de Platão, o que significou a exclusão da crença na reencarnação, comum nos cristãos primitivos. Aliás, este concílio é uma das histórias mais mal contadas do catolicismo! Mas isso é uma questão menor, que não me impede de admirar a obra gigantesca da Igreja Católica em nos conduzir das trevas do fim do império romano, através das luzes da Idade Média, passando pelo apagão do iluminismo até chegar nesses tempos difíceis e confusos, como aliás estava previsto na Bíblia.

Devo muito à Igreja Católica, e nunca me cansarei de repetir isso. Ler as obras de Bento XVI sempre foram um prazer enorme para mim. Primeiro pela iluminação, depois por ver uma pessoa que tem os primeiros princípios corretos.

Só espero que o afastamento de Bento XVI do papado não seja seu afastamento da vida pública. Algo me diz que ele ainda tem muita a dizer para todos nós, independente de religião.

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Um pouco mais sobre Bento XVI

Antes de dormir ontem eu baixei a terceira carta encíclica do atual papa, Caritas in Veritae. Trata-se de sua encíclica “econômica” e trata da visão da doutrina social da  Igreja. Suas referências são Populum Progressio de Paulo VI e Rerum Novarum de Leão XIII. Minha intenção ontem era ler novamente Caritas, Rerum e ler a Populum que ainda estou na dívida.

Na verdade eu li Caritas duas vezes e ainda estou buscando compreendê-la em sua totalidade. A primeira vez que a li estava ainda muito influenciado pela defesa absoluta do capitalismo e pelos movimentos globalistas o que me deixou bastante desconfortável com vários trechos da encíclica. A segunda, com uma visão menos apaixonada, pude ver que o bicho não era tão feio assim, embora ainda restassem algumas passagens que não entendi onde o papa queria chegar.

De uns tempos para cá, influenciado pela leitura de Três Alqueires e uma Vaca do Corção e dos filmes de Frank Capra comecei a me interessar mais pelo distributismo, que nada mais é que a tal doutrina social da Igreja e foi popularizada por Belloc e Chesterton. 

Pelo que entendi até agora repudia igualmente socialismo e capitalismo. Enquanto o socialismo prega a divisão igualitária das riquezas, o capitalismo está ligado à completa liberdade de dispô-la. O distributismo se refere a dois pontos principais: a distribuição da propriedade e a dualidade da propriedade privada e uso social.

No primeiro ponto, distribuição da propriedade, coloca em segundo plano a distribuição de riquezas e defende que a propriedade deve ser distribuída para o máximo de pessoas possível. E mais, que esta distribuição deve ser voluntária. É a doutrina do pequeno proprietário, dos artesãos, das pequenas lojas. Pense no Walmart e o distributismo irá na direção oposta. Ao invés de ir contra a concentracão de renda, foca no combate à concentração da propriedade, que torna o homem escravo do salário.

No segundo ponto, defende o direito à propriedade como um direito natural do homem. Nenhuma lei ou governo pode tirar do homem o direito de ter suas posses, incluindo o produto do seu trabalho. A dualidade vem do fato que apesar da propriedade ser privada e individual, seu uso deve buscar a satisfação da sociedade, entendida como as pessoas à sua volta. 

Ainda vou falar mais do distributismo neste blog, e suas críticas, mas o fato é que me interessei pela coisa e comecei a pesquisar. E estas três encíclicas se colocam com referência, especialmente a Rerum Novarum. Que li ontem antes de dormir até a metade. 

Hoje de manhã fui surpreendido como todo mundo com a renúncia de Bento XVI. Estou apressando minha leitura da Rerum para ler novamente a Caritas in Veritae, desta vez tendo as idéias do distributismo para tentar iluminar um pouco do que Bento estava tentando dizer. Depois retorno para ler a Populum.

Uma das principais coisas que aprendi com Bento XVI, que considero o maior intelectual vivo, foi uma constatação simples que nunca tinha percebido. Toda escolha econômica é também uma escolha moral. Uma sociedade que enfrenta uma confusão moral, tomará necessariamente escolhas econômicas confusas. Por isso o então Cardeal Ratzinger, em 1985, defendeu em um simpósio que o sistema capitalista, será que pode ser chamado deste nome, entraria em profunda crise em algumas décadas. Um sistema de liberdade econômica só pode funcionar se tiver como base um forte sistema de valores morais, como o cristianismo. Uma cultura hedonista e niilista só poderá produzir um colapso econômico.

It is becoming an increasingly obvious fact of economic history that the development of economic systems which concentrate on the common good depends on a determinate ethical system, which in turn can be born and sustained only by strong religious convictions. Conversely, it has also become obvious that the decline of such discipline can actually cause the laws of the market to collapse. An economic policy that is ordered not only to the good of the group – indeed, not only to the common good of a determinate state – but to the common good of the family of man demands a maximum of ethical discipline and thus a maximum of religious strength.

Aliás, sobre o assunto, indico este excelente artigo do Spengler do Asia TImes e o texto original do próprio Ratzinger.

Por fim, esta é só uma amostra do que é Ratzinger, um teólogo que passou a vida abrindo pontes de diálogo com economia, ciência, filosofia. Lembro que quando estava fazendo um curso de filosofia, há quase dez anos, me aventurei em ler um debate entre Ratzinger e Habermas. O nível foi tão alto que lembro que não consegui entender praticamente nada do que estavam discutindo. Ainda tenho o texto, um bom exercício para saber se estes dez anos de estudos serviram para alguma coisa.

Dá para entender um pouco da completa admiração que tenho por esta figura?

E olha que nem sou católico!

 

Renúncia do papa!

Por essa ninguém esperava.

O mundo católico foi pego de surpresa ontem com a renúncia do papa Bento XVI. É o reconhecimento de que não tem mais forças físicas para dirigir a Igreja Católica, coisa rara de acontecer.

Fico na esperança que use o tempo para escrever. Considero Ratzinger o maior intelectual vivo em todo o planeta. E o mais honesto também. A Igreja como instituição perde sua liderança mas a Igreja como comunidade poderá aproveitar melhor a maior qualidade desse nobre ancião, seu pensamento.

Sem o carisma de seu antecessor, soube conquistar seu espaço pelo seu profundo conhecimento de teologia e filosofia, pelo seu pensamento claro e articulado que colocou em perspectiva a Igreja e seus desafios no novo milênio. Se você é católico e ainda não leu suas três encíclicas (boa parte nem sabe o que é isso), pode ter certeza que está em dívida. 

Minhas orações hoje ficam com este grande homem.