Eu e outras poesias (Augusto dos Anjos)

Augusto dos Anjos é considerado um dos nossos grandes poetas, mas a imagem que ficou associado ao seu nome foi a da morbidez, de um autor que fazia poesias sobre cadáveres em putrefação. Na verdade, ele foi um dos poetas mais honestos que já existiu pois tratou claramente do tema recorrente de 90% da literatura mundial: a morte.

Acho que alguém já disse que a morte é o único tema relevante para um escritor. Outro, quem sabe o mesmo, disse que a única questão relevante era se um homem devia se suicidar ou não. É interessante pois a única certeza que temos, e nem Cristo escapou deste destino, é que um dia morreremos; trata-se da essência da condição humana.

A certeza da morte e a perspectiva que esta certeza tem sobre nossas vidas é o tema que atravessa toda a poesia de Augusto dos Anjos. Que sentido tem nossas dores, esperanças, amores, decepções se no fim encontraremos a morte? É o que o poeta tenta nos instigar com Eu e Outras Poesias.

Talvez Asa de Corvo seja o soneto que melhor exemplifica a temática de Augusto dos Anjos, já comentado aqui. Nele, Augusto usa a imagem da asa de um corvo sobrevoando uma casa para nos dar a idéia de que a morte está sempre nos acompanhando, esperando a hora certa de descer sobre nós.

É com essa asa extraordinária Que a Morte – a costureira funerária _ Cose para o homem a última camisa!

A poesia triste, e muitas vezes sem esperança, de Augusto dos Anjos nos lembra da fatalidade do nosso destino e dos contrastes que estabelece sobre nossas vidas.

Às alegrais juntam-se as tristezas, E o carpinteiro que fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!…

Se muitas vezes faz a descrição minunciosa de corpos em decomposição é para mostrar que como matéria temos o destino selado. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Sim, seremos comidos pelos vermes. Mas quem efetivamente servirá de alimento? Nossa própria identidade ou apenas o veículo de nossa existência corporal?

Trata-se da pergunta que pode definir nosso mode de viver, de como encarar a existência. É o que a poesia de Augusto dos Anjos tenta despertar em nossa consciência. Como encaramos a morte? Como a enfrentamos? Como ela interfere em nossa vida? Se nunca pensamos sobre isso, talvez seja a hora.

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All over para o Saints

Com a derrota ontem para o Atlanta por 23 x 13 a coisa ficou muito complicada para o New Orleans Saints e nem seus fanáticos torcedores acreditam na possibilidade de classificação para os playoffs. Além da dura tabela, que tem o Giants em New York pela frente, o time não está jogando bem, o que se refletiu na interrupção do recorde que Drew Bress vinha batendo.

Classificar com 9 vitórias no total é ter muita sorte, ainda mais por wild card. As quatro derrotas iniciais cobraram seu preço, ainda mais em jogos relativamente fáceis. Pesou demais a suspensão de seus jogadores, especialmente de defesa, no início do campeonato, além de seu treinador por toda a temporada.

Uma pena, o time tem um ataque poderoso e um excepcional QB. Vai fazer falta nos playoffs.

Felipão e o problema da ampliação indevida

Parece que está dando o que falar a afirmação do Felipão sobre a questão da pressão. Para fazer uma comparação, usou como exemplo o Banco do Brasil. O sindicato dos bancários comprou a briga argumentando que Felipão ofendeu a profissão.

Independente de ter razão ou não, o caso serve para exemplificar uma das táticas que Schopenhauer exemplificou como uso indevido da retórica em seu livro Dialética Erística. A melhor edição no Brasil é a comentada por Olavo de Carvalho que saiu com o título de Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão, que já resenhei em post no antigo blog.

Estou sem meu exemplar na mão para dizer qual o número da regra que foi exemplificada no caso Felipão, mas trata-se de “ampliação indevida”. Acontece uma ampliação indevida quando uma das partes amplia o conjunto a que a outra parte se refere e ataca este conjunto maior, quando na verdade tratava-se de um conjunto mais restrito.

Felipão referiu-se a trabalhar no Banco do Brasil e não em qualquer banco. Possivelmente estava usando o caráter público do banco para fazer sua comparação, usando a percepção que existe sobre o trabalho dos funcionários públicos. Talvez o BB tenha surgindo em sua mente sobre o constante envolvimento de seus membros em escândalos de corrupção que mostra o efeito nefasto do aparelhamento da instituição. Esta semana mesmo está em todos os jornais o caso do seu diretor de seguros, que teve um diploma forjado pelo MEC para poder exercer o cargo.

Querer dizer que Felipão se referiu aos bancários em geral é uma ampliação indevida, um exemplo de como vencer um debate sem precisar ter razão. Independente da razão do Felipão, não se pode atribuir o que não falou para atacá-lo. Infelizmente isso acontece a todo tempo no debate público, o que mostra a pobreza dos nossos debates.

Será que não encontram argumentos suficientes para mostrar que os bancários do Banco do Brasil trabalham sob pressão? 

mudança embalada

Praticamente terminou a embalagem da primeira parte de nossa mudança, a que vai ficar em um depósito. Amanhã esta parte segue destino e completamos a primeira fase do transporte. É a maior delas pois optamos por levar o mínimo possível.

Segunda feira, ou sábado, começa a embalagem da parte internacional. Nossa expectativa é entregar o apartamento na quarta-feira e nos preparar para o embarque na sexta que vem, com destino a Manaus onde vamos passar alguns dias visitando amigos muito especiais.

Dia 11, seguimos para os Estados Unidos e chegaremos em Vicksburg no mesmo dia.

Até lá ainda há algumas providências, mas tudo se ajeitará, como sempre.

Acho que reduzimos nossas coisas em cerca de 30%. Durante anos adiamos o dia de realmente fazer essa lima. Enfim, conseguimos. Agora o desafio é evitar o novo ajuntamento de tranqueiras.

Retrato da banalidade

Eis um trecho do relatório de escuta da Polícia Federal:

“Castilho liga para Rose e ela fala que está brava com Castilho, pois precisou de sua ajuda hoje pela manhã. Fala que a mãe do Dr. Calil (sic), médico do presidente, estava voltando de Paris com a filha e amigos e comprou umas roupas. Aí a Receita Federal pegou, abriu as malas, e tiveram que pagar quase R$ 4 mil. Castilho diz que poderia ter ligado; Rose fala que ligou”.

Castilho é delegado no aeroporto de Guarulhos. Rose, uma funcionária de 5º escalão, que nunca apareceu em noticiário, consegue achacar um delegado da polícia federal por causa da mãe do médio do presidente! Esse é o retrato do governo popular do PT. A verdadeira democratização da corrupção. Qualquer membro do governo, em qualquer escalão, tem o nome do presidente da república para usar como bem entender.

E o fato das pessoas aceitarem o uso deste nome indica muita coisa, ou não?

Um artigo que eu gostaria de ter escrito

Confesso a minha completa inveja pelo artigo que Guilherme Fiuza escreveu na edição 757 da Época. Não costumo fazer isso, mas desta vez não resisti. Segue a íntegra.

 

O negro venceu de novo. E o mundo dos bonzinhos se tornou um pouco mais racista. A maioria das celebrações pela reeleição de Barack Obama nos Estados Unidos destaca o segundo mandato de um negro na presidência do principal país. Ou seja: os “progressistas” continuam exaltando Obama pela cor da sua pele. Isso é racismo. A burrice politicamente correta conseguiu criar mais uma pérola: os progressistas retrógrados.

Eles não enxergam bem por trás dos estereótipos. Mas se enxergassem, continuariam gostando do que vêem. Por trás do estereótipo do presidente negro está o governante bondoso, em mais uma camada dos clichês que constituem Obama. E os politicamente corretos amam os clichês, que tornam o mundo mais simples e os liberam da desagradável tarefa de pensar. A modernidade é assim: esconda-se atrás de um bom slogan, e será um virtuoso.

Existe uma turma boa levando vida de herói desse jeito doce. O consagrado economista Paul Krugman, por exemplo, gostou tanto de ser o anti-Bush que não largou mais a vida fácil de alertar o mundo contra a maldade dos republicanos, dos capitalistas selvagens, das elites poderosas. Virou quase um José Dirceu de Princeton, um Luiz Inácio do “New York Times”. Nesse coro da bondade estão outros conhecidos acadêmicos providenciais, como o Nobel Joseph Stiglitz, sempre tirando da manga uma declaração que faça o populismo esquerdista parecer profundo. Isto para não falar nos americanos que ganham a vida sendo anti-americanos, como o teórico Noam Chomsky, e dos patrulheiros “éticos” de Hollywood, como Oliver Stone, que chegam a façanhas como tentar transformar Hugo Chávez em ídolo das Américas.

Obama é um produto desse lixão chique, desse aparato infernal de boas intenções exibicionistas e inconsequentes. E qual é a solução dessa esquerda festiva para os Estados Unidos (e também para a Europa)? Gastar dinheiro. Torrar a grana do Estado, que não é de ninguém. Almoço grátis para todos. No que foi reeleito, o presidente democrata já avisou que vai aumentar os impostos “dos ricos”. Como é hipócrita, a esquerda. Lá vai ela de novo enfiar a mão no bolso de quem produz, de quem poupa, de quem investe. E para quê? Para alimentar a insaciável máquina da burocracia estatal, que promete um bem-estar social inviável, e produz basicamente o bem-estar dela mesma – e da consciência rasa dos “progressistas”.

O mundo, pelo visto, vai à falência com o sono tranquilo e um sorriso nos lábios. O golpe demagógico dos populistas é um sucesso. Por onde passa, Obama faz o seu discurso vazio, repleto de clichês de humanismo, mero pretexto para suas caras e bocas ensaiadas com marqueteiros “modernos”. Um completo canastrão, sem idéias nem liderança, aclamado não pelo que diz, mas pelo que parece. O público não ouve uma palavra, só vê o estereótipo do símbolo social, do redentor negro. Barack Obama é prêmio Nobel da paz. Nem é preciso dizer mais nada.

Fez estrondoso sucesso um vídeo de Obama enxugando as lágrimas durante a campanha. Reeleito, qual foi sua primeira declaração? “Eu amo a Michelle”. Os brasileiros sabem bem o que é isso, com seu culto inesgotável ao filho do Brasil e à mãe do PAC, ou da pátria, ou sabe-se lá de quem. Depois do melodrama, o presidente democrata veio com a parte séria, anunciando a medida que provém da única vocação concreta dos populistas: tomar dinheiro da iniciativa privada. Bondosos do mundo inteiro aplaudem, sem entender por que os países ricos estão cada vez mais perto da bancarrota.

Enquanto isso, no Brasil, o desorientado ministro da Fazenda, que já inventou até uma equação ligando o PAC ao PIB (nem Paul Krugman engoliria essa), admite ao país: o governo não vai cumprir a meta fiscal em 2012. Como se sabe, Guido Mantega é um ministro de oposição, que critica as maldades do Banco Central e dá presentinhos com o IPI dos carros e das geladeiras. Mas dessa vez não deu para discordar das raposas monetárias: o superávit primário – que segura a estabilidade econômica – já era.

Nem tudo está perdido. Se os bonzinhos começarem a admitir que gastam o dinheiro que não têm, das duas uma: ou os povos vão à falência muito bem informados, ou finalmente param de votar nesses Robin Hoods de circo.