Inferno, o segundo círculo

the double grief of a lost bliss

is to recall its happy hour in pain

Prosseguindo minha leitura de Inferno, no Canto V, após passar pelo vestíbulo do inferno onde estão os indecisos, aqueles que não assumiram compromissos nem com o bem e nem com o mal, e pelo primeiro círculo, onde estão os pagãos virtuosos, o máximo que um homem consegue alcançar sem Deus, eis que Dante e Virgílio chegam no segundo círculo, onde o sofrimento realmente começa.

O guardião é Minos, o famoso minotauro de Creta, e no círculo um enorme redemoinho conduzem as almas dos que se entregaram aos prazeres da luxúria, uma deformação do amor. Estão lá Cleóprata, Helena de Tróia, Paris, Aquiles e tantos outros. E também Paolo e Francesca, duas almas que permaneciam juntos, tais como foram na Terra.

Francesca foi esposa de um grande general, Giovanni, mas o traiu seguidamente com seu irmão mais novo, Paolo. Descobertos, Giovanni os mata em um acesso de fúria. O fato de ambos sofrerem juntos pela eternidade não significa que o amor permanece mesmo no inferno. Para Dante, para quem estava sofrendo no inferno, por próprio desejo, a lembrança dos tempos felizes agravava a dor e por isso Paolo e Francesca sofriam juntos.

Gustave Dore (1890)
Gustave Dore (1890)
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Eu e outras poesias (Augusto dos Anjos)

Augusto dos Anjos é considerado um dos nossos grandes poetas, mas a imagem que ficou associado ao seu nome foi a da morbidez, de um autor que fazia poesias sobre cadáveres em putrefação. Na verdade, ele foi um dos poetas mais honestos que já existiu pois tratou claramente do tema recorrente de 90% da literatura mundial: a morte.

Acho que alguém já disse que a morte é o único tema relevante para um escritor. Outro, quem sabe o mesmo, disse que a única questão relevante era se um homem devia se suicidar ou não. É interessante pois a única certeza que temos, e nem Cristo escapou deste destino, é que um dia morreremos; trata-se da essência da condição humana.

A certeza da morte e a perspectiva que esta certeza tem sobre nossas vidas é o tema que atravessa toda a poesia de Augusto dos Anjos. Que sentido tem nossas dores, esperanças, amores, decepções se no fim encontraremos a morte? É o que o poeta tenta nos instigar com Eu e Outras Poesias.

Talvez Asa de Corvo seja o soneto que melhor exemplifica a temática de Augusto dos Anjos, já comentado aqui. Nele, Augusto usa a imagem da asa de um corvo sobrevoando uma casa para nos dar a idéia de que a morte está sempre nos acompanhando, esperando a hora certa de descer sobre nós.

É com essa asa extraordinária Que a Morte – a costureira funerária _ Cose para o homem a última camisa!

A poesia triste, e muitas vezes sem esperança, de Augusto dos Anjos nos lembra da fatalidade do nosso destino e dos contrastes que estabelece sobre nossas vidas.

Às alegrais juntam-se as tristezas, E o carpinteiro que fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!…

Se muitas vezes faz a descrição minunciosa de corpos em decomposição é para mostrar que como matéria temos o destino selado. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Sim, seremos comidos pelos vermes. Mas quem efetivamente servirá de alimento? Nossa própria identidade ou apenas o veículo de nossa existência corporal?

Trata-se da pergunta que pode definir nosso mode de viver, de como encarar a existência. É o que a poesia de Augusto dos Anjos tenta despertar em nossa consciência. Como encaramos a morte? Como a enfrentamos? Como ela interfere em nossa vida? Se nunca pensamos sobre isso, talvez seja a hora.

Soneto A Frederico Nietzsche (Augusto dos Anjos)

Para que nesta vida o espírito esfalfaste
Em vãs meditações, homem meditabundo?
– Escalpelaste todo o cadáver do mundo
E, por fim, nada achaste… e, por fim, nada achaste!…

A loucura destruiu tudo o que arquitetaste
E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!…
De que te serviu, pois, estudares profundo
O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?

Pois, para penetrar o mistério das lousas,
Foi-te mister sondar a substância das cousas
– Construíste de ilusões um mundo diferente,

Desconheceste Deus no vidro do astrolábio
E quando a Ciência vã te proclamava sábio,
A tua construção quebrou-se de repente!

Para os clássicos, a meditação filosófica começava nos problemas reais. Era comum Sócrates se encontrar com alguém no meio de Atenas e iniciarem um colóquio sobre alguma dificuldade prática, as chamadas coisas das pólis. 

Na filosofía moderna, esta exigência da realidade do assunto a ser investigado deixou de existir e muitos filósofos passaram a vida refletindo sobre questões abstratas, sem conexão com o mundo real. Um deles foi Nietzsche. Augusto acerta no ponto quando fala de vãs meditações; muitas vezes o filósofo alemão perdeu-se justamente nisso e só poderia chegar no fim que chegou: “nada achaste!”.

Estudou profundamente várias coisas, procurando sua substância, sua essência, mas sua rejeição a Deus o impediu de ver a causa final das coisas, a finalidade de tudo que existe, o porquê. O mundo que criou foi diferente do real, o mundo como idéia que falava Bruno Tolentino, um castelo de ilusões. E justamente quando foi reconhecido como um sábio por uma ciência preocupada em renegar a divindade, seu mundo se perdeu. Nietzsche morreu amargurado e louco. 

O homem que se desconectou completamente da realidade. 

A Árvore Da Serra

– As árvores, meu filho, não têm alma!

esta árvore me serve de empecilho…

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

 

– Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…

Esta árvore, meu pai, possui minha alma!…

 

– Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:

“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

 

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!

A única certeza

Asa de Corvo (Augusto dos Anjos)

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa…

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

È com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza…

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!

O poema trata da única certeza que temos na vida, a morte. Muitos filósofos já colocaram que o assunto mais relevante que temos para trarar em nossas vidas é justamente esse; tudo o mais deriva em torno da constatação que um dia morreremos.

Claro que muitas religiões colocam a morte como uma passagem, algumas inclusive são reencarnacionistas. Não importa. Pelo menos no que se refere à esta vida, a que estamos vivendo, todas sabem que morreremos. Pelo menos no sentido material do corpo. A questão da alma, se ela existe ou não, se é imortal ou não, é outra estória.

A questão da morte é tão importante que define o nosso comportamento durante toda nossa vida. E olha que a grande maioria de nós se recusa a pensar no assunto! As próprias ciências a colocam no máximo em um segundo plano, quase como se fosse uma supertição. O problema é que se colocarmos a ação humana como o centro das ciências, particularmente das sociais, e se a ação humana é em grande parte resultado de nosss crenças mais profundas em relação à morte, fica claro que temos um problema sério na abordagem dessas ciências.

Como falar de economia, por exemplo, sem levar em conta a ação humana e, portanto, da expectativa que temos em relação à morte? O simples fato de acreditar ou não em vida após a morte implica em como agiremos nas nossas decisões individuais. No entanto, economistas falam em taxas de juros, PIB, investimento, justiça social, quase como se o indivíduo não existisse ou que não tivesse vontade própria.

O mesmo acontece na sociologia, psicologia, história, etc. A ciência que lida diretamente com a questão da morte, que na verdade gira em torno dessa questão, é a religião. Ou teologia, nem sei. O fato é que ainda discutimos se deve-se ensinar religião quando talvez ela seja a questão central de nossas vidas, inclusive a decisão de não ter uma religião! (O que, por acaso, implica em ter uma religião, a da não religião).

Ser religioso é da essência do ser humano, ou seja, faz parte da nossa própria humanidade. Não é por acaso que o ateísmo tem todas as características de uma religião, assim como a ideologia. Pode-se revoltar o quanto quiser contra Deus, mas sempre haverá algo no seu lugar. A estória da humanidade é a estória da revolta e conciliação com Deus, ou seja, é a estória da religião em sentido amplo.

Por isso a questão de estudar ou religião é absurda. Tudo é religião! Tudo é teologia! A própria ciência só tem sentido quando aceitar o papel da religião no mundo, a de questão central da condição humana porque tem como base justamente a questão da morte. Qualquer pergunta que se faça sobre a morte, o que é, por que ocorre, o que significa, o que implica, só pode ser feita sob um ponto de vista religioso.

Note-se que não estou falando de religião como instituição organizada, nada disso. Estou falando de religião como aquele sentimento inato que nos relaciona com Deus, seja que tipo de relacionamento for, inclusive de rejeição. O próprio sentido de religião como religar inclui aqueles que rejeitam o criador pois só se pode religar o que foi perdido.

Para concluir, volto aos versos do poeta:

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

Por isso é tão importante para um ateu revoltar-se contra Deus. E inútil. É nosso destino viver junto a essa asa. É nosso destino conviver com a certeza de que vamos morrer.

É nosso destino viver à sombra de Deus.

Um tratado sobre a natureza humana

Ilíada, de Homero

 

Ao narrar um período de cerca de 20 dias da Guerra de Tróia, Homero nos blindou com imagens tão poderosas que estabeleceria para sempre os parâmetros para a mais famosa campanha da antiguidade. Impressionante como um poema possa compactar tantas emoções e ao mesmo tempo trazer tanto realismo aos combates que foram travados entre a briga de Aquiles com Agamenon e a luta final de Aquiles com Heitor.

Ao contrário do que se possa imaginar, não é Aquiles ou Heitor os protagonistas da estória. A própria guerra é o principal, com toda sua carga emocional e acima de tudo, com sua irracionalidade. Em imagens vivas, Homero conta a epopéia e morte de inúmeros heróis, que partem para Hades mostrando que na guerra o que mais acontece é o imenso desperdício de almas.

Deuses e mortais se misturam em combates sem fim e no fundo, a razão da guerra parece simplesmente injustificada para tamanho morticínio. Mas não seria assim todas as guerras? No fundo haverá realmente justificativas para que bons homens se enfrentem de maneira tão selvagem em campos de batalha? Lembrei de uma frase de Clint Eastwood no sensacional Três Homens em Conflito, presenciando uma batalha da Guerra Civil, nunca vi tamanho desperdício de bons homens.

Pois essa é a sensação de ler Ilíada, o enorme desperdício de almas. Não é à toa que ao narrar a morte de Heitor, Homero se expresse:

Pós ter falado, cobriu-o com o manto de trevas a Morte,

e a alma, dos membros saindo, para o Hades baixou, lastimando

a mocidade e o vigor que perdia nessa hora funesta.

Ilíada é mais que uma narrativa histórica sobre a Guerra de Tróia. Trata-se de um gigantesco tratado sobre a natureza humana e tudo que aflora em uma Guerra. Lembrando que os períodos de paz sempre foram para a humanidade a excessão, o épico representa também a trajetória da humanidade na Terra, uma epopéia de Guerras e morticínio inútil.

Cotação: ✭✭✭✭

Augusto dos Anjos: Asa de Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa…

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

È com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza…

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte – a costureira funerária –
Cose para o homem a última camisa!

 

Qual o tema desse soneto? Alguém se aventura?