Um tratado sobre a natureza humana

Ilíada, de Homero

 

Ao narrar um período de cerca de 20 dias da Guerra de Tróia, Homero nos blindou com imagens tão poderosas que estabeleceria para sempre os parâmetros para a mais famosa campanha da antiguidade. Impressionante como um poema possa compactar tantas emoções e ao mesmo tempo trazer tanto realismo aos combates que foram travados entre a briga de Aquiles com Agamenon e a luta final de Aquiles com Heitor.

Ao contrário do que se possa imaginar, não é Aquiles ou Heitor os protagonistas da estória. A própria guerra é o principal, com toda sua carga emocional e acima de tudo, com sua irracionalidade. Em imagens vivas, Homero conta a epopéia e morte de inúmeros heróis, que partem para Hades mostrando que na guerra o que mais acontece é o imenso desperdício de almas.

Deuses e mortais se misturam em combates sem fim e no fundo, a razão da guerra parece simplesmente injustificada para tamanho morticínio. Mas não seria assim todas as guerras? No fundo haverá realmente justificativas para que bons homens se enfrentem de maneira tão selvagem em campos de batalha? Lembrei de uma frase de Clint Eastwood no sensacional Três Homens em Conflito, presenciando uma batalha da Guerra Civil, nunca vi tamanho desperdício de bons homens.

Pois essa é a sensação de ler Ilíada, o enorme desperdício de almas. Não é à toa que ao narrar a morte de Heitor, Homero se expresse:

Pós ter falado, cobriu-o com o manto de trevas a Morte,

e a alma, dos membros saindo, para o Hades baixou, lastimando

a mocidade e o vigor que perdia nessa hora funesta.

Ilíada é mais que uma narrativa histórica sobre a Guerra de Tróia. Trata-se de um gigantesco tratado sobre a natureza humana e tudo que aflora em uma Guerra. Lembrando que os períodos de paz sempre foram para a humanidade a excessão, o épico representa também a trajetória da humanidade na Terra, uma epopéia de Guerras e morticínio inútil.

Cotação: ✭✭✭✭

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Aprendendo com o erro

Um dos lugares comuns que escutamos frequentemente é que precisamos errar para aprender.

Não é bem assim. O homem é capaz de aprender sem precisar errar.

É certo que o erro é capaz de ensinar, mas não é necessário. Um colega meu costumava dizer que se aprende por reflexão, que é o meio mais nobre, pelo exemplo, um meio mais direto mais que também funciona, e pelo erro, o menos nobre de todos mas muitas vezes mais eficaz. Claro que tem gente que não aceita nem o último, o que mostra que muitas vezes a idiotice é uma questão de escolha.

De minha parte, sigo Homero no Canto XVI da Ilíada:

somente aos estultos os fatos ensinam

No caso, Menelau avisava ao troiano Euferbo para que não o enfrentasse. O herói grego enumera os motivos que conduziriam o adversário à derrota, tenta o argumento da razão. O troiano não se convence e parte para a luta aberta contra Menelau, que termina por matá-lo provando o poder de convencimento dos fatos.

No episódio III, Obi Wan argumenta o mesmo com o enlouquecido Anakin. Avisa-o que estava em uma posição superior, que o discípulo não tentasse. Lógico que Anakin, tal qual Euferbo, ignora o aviso do mestre e se lança para o ataque. Mais um que aprendeu com os fatos.

Errar não é o fim do mundo, é uma condição de homens falhos. No entanto, não é motivo de júbilo e sim de cuidadosa reflexão. Aprender com o erro tem seus méritos, mas aprender sem ele tem mérito ainda maior.

Quebra pau grego

O Canto V da Ilíada é o maior quebra pau entre gregos e troianos, e deuses no meio. Sobra para todo mundo e nem Afrodite escapa. O ritmo é alucinante e deixa o leitor sem respirar, uma espécie de “poesia de ação”, ou um vingadores da época. Na tradução de Carlos Alberto Nunes:

 

A lança atira-lhe, então, que, por Palas Atenas guiada,

foi atingir-lhe o nariz, junto aos olhos, quebrando-lhe os dentes.

A língua, o duro farpão, na raiz também corta, indo a ponta

aparecer, novamente, na parte inferior da mandíbula.

Tomba do carro, de bruços, ressonando-lhe em torno a armadura

cheia de brilho e vistosa; assustados, os dois corredores

saltam de lado; a alma e a força abandonam-lhe o corpo, ali mesmo.

Esses gregos eram mestres!